Category: OPINIÃO

Cláudia Wonder: multiartista, avista e transgressoraCláudia Wonder: multiartista, avista e transgressora

Cláudia Wonder: multiartista, avista e transgressora
Douglas Saviato – Jornalista e estudante do Centro de Estudos Avançados Multidisciplinares da Universidade de Brasília (UnB)

Embora muitos não a conheçam, principalmente as novas gerações, Cláudia Wonder foi um dos grandes nomes da cena underground do país na década de 80.

Multiartista e ícone da cultura gay, Cláudia esteve à frente de seu tempo em um momento nebuloso vivido pelo Brasil: a ditadura militar. A produção deste artigo foi motivada após assistir ao documentário “Meu amigo Cláudia”, encontrado na internet que, claro, indico aos leitores. Na produção de 2009, Cláudia narra sua trajetória artística com passagens pelo teatro, cinema e televisão.

No filme, premiado em diversos festivais dedicados ao cinema gay, é possível visualizar como se comportava a cena underground, contribuindo para a fuga do imaginário daqueles que nasceram após este período ditatorial, como eu. Como atriz, cantora, performer e escritora, Cláudia fez muito barulho na época. No entanto, infelizmente pouco se fala sobre esta multiartista e ativista, que através da sua arte promoveu também o ativismo e a conscientização LGBT, buscando a liberdade e lutando contra o moralismo e o preconceito dos anos 80.

O enredo do documentário reúne depoimentos de atores, músicos e diretores que partilharam a trajetória da artista em diferentes momentos, da década de 80 até os anos iniciais do século XXI. Sua relevância, embora não devidamente reconhecida, ocorria especialmente pelas suas diversas capacidades e inteira disposição de enfrentar desafios e encarar provocações que lhe apareciam.

Cláudia era mais do que uma performer da noite paulistana, era transgressora. Atuou em bandas punks, transformando-se em compositora e vocalista. No lendário clube paulistano Madame Satã, apresentou o show “O vômito do mito”, que conquistou bastante repercussão e que ainda é lembrado pela sua ousadia. De uma classe sofisticada e bastante conceitual, Cláudia se apresentava nua dentro de uma banheira com groselha, simulando o sangue no auge do surgimento da desconhecida e temida Aids, num período em que todos tinham pavor de sangue.
A multiartista também foi a primeira travesti a estrelar uma pornochanchada, o que provocou grande curiosidade aos consumidores das produções na época. Esteve ainda presente em peças teatrais e nas telas dos cinemas, contracenando com artistas de peso, como Raul Cortez e Tarcísio Meira.

Depois de sua passagem marcante no cenário LGBT e underground, Cláudia mudou-se para Europa. Lá permaneceu durante 11 anos, se aventurou nos palcos, mas passou a atuar como empresária do ramo da estética. De volta ao Brasil, retomou a carreira artística em produções musicais. Em 2009, lançou seu livro intitulado “Olhares de Cláudia Wonder”, onde descorre sobre o universo trans, as humilhações sofridas por esta parcela da população e a busca pelo respeito e dignidade. O livro traz ainda situações engraçadas, entrevistas e tragédias, como a morte prematura de Thelma Lipp, outro grande nome trans dos anos 80, símbolo sexual e ícone da cultura gay (personagem, inclusive, para outro texto).

Também de forma prematura, a trajetória de Cláudia findou em 2010 por causa de uma doença causada por um tipo de fungo, transmitida por pombos. A multiartista permaneceu internada por quase dois meses, mas infelizmente não resistiu. Por ser um ícone da cultura gay e por ter um importante e especial papel na luta pelos direitos LGBTs em um período ainda mais opressor e desrespeitoso, é essencial que esta grande artista pioneira, à frente de seu tempo, seja conhecida pelas novas gerações. Espero que neste breve relato tenha despertado em você, leitor, a curiosidade de descobrir e conhecer um pouco mais sobre Cláudia Wonder, esta grande multiartista brasileira.