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OPINIÃO

Os super-heróis também precisam de ajuda

23/03/2019 06:00
Bruna Coelho - Jornalista do Sindicato dos Policiais e Servidores da Polícia Rodoviária Federal no Estado de Santa Catarina

Cerca de 11,5 milhões de brasileiros sofrem com a depressão. A estatística, da Organização Mundial da Saúde, revela que o Brasil é o país com maior prevalência de depressão na América Latina.
Considerada o “mal do século”, a depressão é uma doença que afeta o emocional do indivíduo, causando alterações químicas no cérebro, principalmente com relação aos neurotransmissores. Além da tristeza profunda, provoca a ausência de prazer em coisas que antes faziam bem e grande oscilação de humor e pensamentos, que podem culminar em comportamentos e atos suicidas.
A cada 45 minutos, um brasileiro tira a própria vida. São, em média, 32 suicídios por dia. O número é superior às mortes de doenças como Aids e vários tipos de câncer.  Os dados foram apurados pelo Centro de Valorização da Vida (CVV), organização não governamental que faz atendimento de apoio emocional. Para a OMS, a cada dez casos, nove poderiam ter sido evitados.
Somente no mês de março, dois Policiais Rodoviários Federais entraram para a estatística. Edson Xavier dos Santos, do Rio de Janeiro, era aposentado e foi encontrado morto em casa. No dia seguinte, o PRF Carlos Alberto da Cunha Leme Júnior, que fazia parte do Núcleo de Operações Especiais em São Paulo, também foi encontrado morto pelos colegas. Estes não são casos isolados. Representam a triste realidade enfrentada por profissionais da segurança pública.
A atividade policial é considerada por vários estudos a mais estressante do mundo. Os motivos são diversos: nível de tensão, exaustivas jornadas de trabalho, serviço noturno, risco da atividade, atendimento em situações de tragédia e calamidade pública.
Temos atualmente 94% do efetivo policial com nível alto ou médio de estresse e 36% do efetivo policial sofre com doenças mentais e comportamentais. Os dados foram obtidos no estudo sobre a expectativa de vida do policial, realizado pela Fundação Getúlio Vargas.
Uma entrevista realizada em 2015 pelo Grupo de Estudo e Pesquisa em Suicídio e Prevenção (GEPeSP) também trouxe dados alarmantes. Dos 18.007 policiais entrevistados, 3.225 já haviam cogitado se matar e 650 chegaram a tentar suicídio.
Além de lidar com as dificuldades causadas pela depressão, os policiais relataram o preconceito e a falta de sensibilidade de colegas de trabalho que não levam a sério a doença e suas consequências.
Um artigo divulgado pela Associação Internacional dos Chefes de Polícia, além de expor o problema, traz sugestões de medidas para que as instituições policiais consigam reduzir os casos de alcoolismo, dependência em drogas, depressão e suicídio.
Além do incentivo em buscar profissionais de saúde mental, é muito importante ter um programa de conscientização desde a formação dos policiais. Um programa contínuo, durante toda a carreira. Treinamentos sobre como gerenciar o estresse também estão na lista, juntamente com dias específicos dedicados à família.
Unir forças com outros departamentos e unidades e buscar voluntários que estejam dispostos a ajudar os colegas também são apontados como possíveis soluções pela entidade.
O conhecimento e a iniciativa em ajudar, sem julgamentos, podem levar à cura de alguém. Por trás do uniforme, existem pessoas comuns, seres humanos que adoecem, sofrem e também precisam de ajuda.

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