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OPINIÃO

MULHER MARAVILHA- A heroína da pós-modernidade

03/07/2017 06:00
ANITA O. MUSSI - PSICÓLOGA - CRP 12/1185 E MEMBRO FUNDADORA DA CERES-ASSOCIAÇÃO CRICIUMENSE DE APOIO À SAÚDE MENTAL

O cinema, assim como a arte em geral, é considerado uma forma de expressão do processo criativo que visa a autorregulação da psique que, nutrida pela fonte do inconsciente coletivo, pode lançar novos olhares para diferentes situações. A expressão do processo criativo se dá por meio dos símbolos que carregam em si muitas possibilidades. Os mitos são personificações, ou imagens simbólicas, deste potencial energético da psique.
Quando um símbolo é ativado no inconsciente coletivo, ele carrega consigo energia em direção à consciência, e se ele consegue chegar a seu destino, redireciona a sua unilateralidade. Neste sentido, a arte revela a compensação inconsciente que não diz respeito unicamente ao indivíduo, mas a toda uma época, provocando transformações na consciência.
O retorno da Mulher Maravilha visto sob esta             perspectiva psicológica, representa a mudança de paradigmas da sociedade pós-moderna baseada no conceito sociológico da ordo amoris, como o caminho para o equilíbrio e evolução da consciência da humanidade.
Esta nova ordem do amor, baseada na aceitação e nas diferenças, vem emergindo como uma forma de compensar a força do patriarcado, baseado no poder e julgamento; a fim de restabelecer o equilíbrio entre o masculino e o feminino. A saturação da dominação masculina necessita de uma consciência mais feminina, onde as emoções e sentimentos são valorizados, sensibilizando a razão.
A Mulher Maravilha, de acordo com a versão mitoló-gica do filme, é uma descendente das Amazonas, guerreiras gregas que representam a força do matriarcado. Ela nasce com a missão de vencer Ares, o Deus da guerra. Mas, protegida pelo véu matriarcal, ela cresceu distante da realidade mundana, instruída na vida privada. Chamada pelo seu destino foi para o mundo realizar a sua missão. Enfrentar Ares significava sair da sua ilha paradisíaca e conhecer o mal, o sofrimento, a miséria e a morte. De acordo com o sociólogo Michel Maffesoli, o que está em jogo no ideal comunitário pós-moderno é o retorno da sombra. Segundo ele, a imperfeição é bem vinda porque ela permite integrar todos os elementos constitutivos da inteireza do ser.
No filme, Ares representa esta sombra que precisa ser incorporada e não simplesmente excluída, esta é a missão de Daiana, a Mulher Maravilha.  Psicologicamente, significa que a sensibilidade feminina precisa sair da esfera da vida privada, e vir para o mundo, estimulando uma visão mais afetiva e inclusiva e menos cruel e discriminatória, reconhecendo e respeitando a diferença sexual, religiosa, cultural, ética e reforçando, assim, o sentimento de pertencimento.
Mais aceitação e tolerância em relação à imperfeição significa reconhecer Ares ou o Mal como parte da natureza humana. A falta de consciência do próprio mal provoca projeções e guerras.
A Mulher Maravilha é um símbolo desta feminitude, desta força emergente, capaz de provocar grandes transformações. É uma força que integra o masculino e o fe-minino, numa relação de cooperação, princípio tipicamente feminino, na luta pela vida. Trata-se de um novo tipo de vínculo baseado na troca e não na dependência e submissão, possibilitando a renovação dos relacionamentos em todas as dimensões, da vida pessoal à vida pública, social e política. Um mito pós-moderno que traz a mensagem universal sobre esta nova ordem em que o amor será essencial para salvar o mundo.

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