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OPINIÃO

Menino do centro

18/04/2017 06:00
Mário C. Búrigo Filho Ortopedista cirurgião do joelho - Médico do Esporte - Mestrando em Fisiologia do Exercício - CRM/SC 13463 - RQE 6544/14473

Diante do cenário extremista esquerda e direita que permeia a análise crítica no momento, bem que essa crônica poderia falar sobre os absurdos da Lava Jato ou da quantidades de políticos, de um lado e de outro, envolvidos no escândalo. Mas não é. Eu caminho cotidianamente, com minha esposa e meus fi-lhos, sempre que possível, pelo centro da cidade, com direito a uma passada na praça Nereu Ramos. Volta e meia, vejo meninos brincando e jogando bola na volta da praça. O gol é o portão das empresas Metropolitana. Tem me batido um saudosismo da infância com direito à alguns "insights". Eu sou um menino do centro.
A e criei nos arrabaldes da praça. Dos 5 aos 12 anos morava no edifício Padoim. A turma era grande e envolvia crianças dos prédios vizinhos. Só o Daniel morava em casa, na Marechal Deodoro. Nosso campo de futebol era, com o consentimento do gerente, o estacionamento do Bradesco. Havia um clássico sempre disputado contra a turma da rua Itajaí. Jogávamos com uma camisa encarnada com o nome de "Tiliga" futebol clube, que depois mudou para "Flamor" devido a paixão rubro-negra do pai do Gian, que morava no Comasa. Nos sábados a coisa evoluía. Nós atravessávamos a praça e pulávamos o muro do Lapagese para jogar na quadra do colégio. De vez em quando tomávamos algum corridão de um guarda mal humorado. Era sempre uma aventura.
A avenida Centenário ainda vivia os resquícios dos tempos do trilho, e era um limite imposto pela mãe. Ir até o Balodi, na Henrique Lage, levar a bicicleta e ver novidades, podia. Aprendi a andar de bicicleta no estacionamento do "Campos &Burigo". Depois, o circuito de corrida de bicicleta na volta da quadra sempre incluía uma parada na Marcos Rovaris, na farmácia do saudoso e querido Seu Adamastor (grande aviador segundo as canções cantadas pelo pai). Os natais da "Habitasul" eram sempre azuis. Os carnavais que eu assistia na varanda do LédioBurigo, e também desfilava na bateria do mestre Barra Velha, no Acadêmicos da Folia - eterna rixa com o Palmeirinhas - aconteciam e atravessavam a Getúlio Vargas, ainda sem calçadão. O posto Soratto ainda era na esquina do hoje Bradesco na Deodoro/Marcos Rovaris, que já foi Bamerindus e HSBC, e impedia que eu viesse a pé até em casa do colégio Marista. A mãe e o pai não deixavam, pelo perigo, e me pegavam na casa do vô Mário e da vó Lina, em frente à Mecril. O Flamengo, campeão mundial de 81, em 82 se hospedou no recém inaugurado hotel Sorattur. Ali, no meio da muvuca formada na calçada, meu tio Rui, o Mosquito, me achou e me levou para dentro para tirar uma foto com o Zico. O Magrão, que havia inaugurado a era dos "xis saladas" em Criciúma no antigo "Stop", tinha um "xis" na Getúlio Vargas, onde eu trocava locação de fitas de Atari para o enteado dele por lanches, que até hoje são divinos.
A turma anda por aí. Alguns aqui, outros alhures - Brasil e além fronteiras. Uns, eu nem sei onde. Estão apenas na minha memória. O Paulista, hoje Josenir Cerqueira, para minha felicidade, apareceu depois de 30 anos no consultório, e desenvolve um trabalho social lindo com adolescentes na Camerata Criciúma.
Eu não sou mais um menino do centro, sou um pai. Continuo caminhando pelas ruas onde cresci, naquilo que o Neil Peart, baterista do Rush, no livro "A estrada da cura", chama de terapia do movimento, tentando entender como cheguei até aqui, e como vou seguir pelo caminho.

 

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