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OPINIÃO

Corpo, Sociedade e Democracia

15/09/2018 06:00
Pedro Paulo de Miranda - Professor, Mestre em Educação, membro da Academia Criciumense de Filosofia

Na sexta feira, dia 7 de setembro, matéria on-line foi divulgada em jornal do estado, cujo título remetia às mudanças que ocorrem acerca do tratamento do câncer. O assunto teve origem na entrevista concedida pelo médico indiano, radicado nos EUA, Siddartha Mukherjee, que proferiu palestra em Porto Alegre, no dia 3 de setembro, no evento “Fronteiras do Pensamento”. O tema abordado suscitou cogitações a respeito do corpo, sociedade e democracia, proporcionado, quem sabe, pelo período eleitoral que o país está inserido. Para tanto, invocarei alguns clássicos do pensamento sociológico, com vistas a discorrer o que me proponho. Iniciando por Auguste Comte (Sec. XVIII), que acreditava que os problemas sociais e as sociedades, em geral, deveriam ser estudados com o mesmo rigor científico das demais ciências naturais que tratavam seus respectivos objetos de estudo, assim sendo, os fenômenos deveriam ser observados da mesma forma que um biólogo observa os espécimes de seus estudos. Atuando desta forma, o cientista social encontraria o “remédio”, pois entendia os fenômenos sociais como sintomas de uma doença a ser curada. Émile Durkheim (Séc. XIX/XX), por sua vez, compreendia que nas sociedades complexas a divisão do trabalho expressada pelas diferentes profissões engendraria o que denominou de solidariedade orgânica, onde todos dependeriam uns dos outros para o equilíbrio social. Por essa razão denominou de orgânico, visto que assemelhava a um organismo vivo, onde os órgãos (profissões) em estado de equilíbrio funcionariam perfeitamente, caso contrário, o mau funcionamento das partes causaria o estado denominado de patológico. Para Durkheim, a coesão social tinha um papel fundamental para evitar o estado patológico, cujos códigos e regras de conduta estabeleciam direitos e deveres e que se expressavam em normas jurídicas, a exemplo do direito, colocavam-se como condição primária desse cenário - o “remédio social”. Diferente dos dois primeiros, Karl Marx (séc. XIX) não compreendia a sociedade com um ente biológico e como tal deveria ser observada para encontrar os “remédios sociais” visando à reorganização e, consequentemente, o equilíbrio social. Para Marx, a di- visão entre trabalho intelectual e trabalho manual cindiu a sociedade entre quem a determinava e quem era determinado, ou seja, o proprietário e o não proprietário, com saídas poucos exequíveis para o equilíbrio social ou o entendimento entre as partes, senão o conflito. Com o perdão do leitor, pincei elementos desta ou daquela teoria sociológica, sem o compromisso de aprofundá-las, pois não é a pretensão. Então, retornando à questão que motivou a construção do texto, disse o médico indiano, “acho que não é possível erradicar o câncer de nossos corpos, de nossas almas e de nossa sociedade para sempre. O câncer é parte do nosso aparelho genético e celular. Os genes que nos permitem crescer e prosperar como organismos multicelulares são os genes que nos predispõem ao câncer.” Extrapolando, observo algo em comum entre as teorias apresentadas e a afirmação do médico e professor da Universidade de Columbia (NYC), mas sem o compromisso da certeza, apenas da especulação, vejamos, os mesmos genes que permitem o equilíbrio são os mesmos causadores do oposto. A mesma sociedade democrática que busca equilibrar e congregar é a mesma que produz o oposto, portanto o binômio equilíbrio - desequilíbrio e/ou saúde - câncer social, digamos assim, é inevitável, visto que ex- tirpando, extirpa-se aquele que o produz, isto é, a sociedade onde vivemos. Por fim, considerando a divulgação dos últimos indicadores educacionais, sociais e político, tudo leva crer que estamos perdendo para a “doença”.

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