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OPINIÃO

A fosfoetanolamina

11/04/2017 06:00
Mário C. Búrigo Filho Ortopedista cirurgião do joelho - Médico do Esporte - Mestrando em Fisiologia do Exercício - CRM/SC 13463 - RQE 6544/14473

Você pode não saber o que é ela, mas com certeza já ouviu falar dela. Ela é aquela substância milagrosa que foi ovacionada aos quatros ventos como a cura fantástica do câncer. Engraçado que agora, após a suspensão dos testes clínicos científicos que comprovaram mais uma vez sua ineficácia, você mal ouviu isso ser divulgado pelos sensacionalistas de plantão.
A ignorância científica já parte do pressuposto que o câncer é uma doença única e global do orga-nismo. Há mais de uma centena de tipos de cânceres identificados nos seres humanos, cada um com suas peculiaridades. O câncer é o crescimento desordenado de células anormais, que apresentam um crescimento tão acelerado que o nosso organismo se torna incapaz de matá-las, em um processo biológico chamado de apoptose. Para cada tipo de câncer que nos acomete, nas mais variadas regiões do nosso organismo, existem protocolos específicos desenvolvidos na tentativa de cura dessa doença maligna.
Partindo desse conhecimento básico, já é impossível acreditar em uma única substância capaz de nos trazer a cura global. No Brasil, há extrema dificuldades de se praticar ciência em âmbito universitário. Nossa realidade é precária, e cientistas que aqui se destacam com suas pesquisas são guindados aos países de primeiro mundo, especialmente os Estados Unidos. Obviamente que isso acontece por interesse nas patentes medicamentosas das grandes empresas farmacêuticas, porém isso não significa que teorias da conspiração devam ser justificativas do desconhecimento irresponsável desfazendo o mérito e a grandeza de estudos científicos.
Para uma droga entrar no mercado e ser utilizada como tratamento de qualquer patologia em seres humanos há uma severa, e longa, rotina de estudos e experimentos. Coisa que nunca aconteceu com a fosfoetanolamina porque a mesma já se mostrou absolutamente ineficaz nos estudos primários com animais. Isto tudo estava documentado e registrado nos laboratórios da USP, mas um dos pesquisadores, irresponsavelmente, passou mais de 20 anos distribuindo a substância e vendendo esperança aos desesperados. Advogados de má fé se beneficiaram dessa esperança e pressionaram juízes, que jogaram a ciência no lixo e obrigaram a distribuição da substância milagrosa. O Brasil virou piada no exterior.
Agora, após uma pesquisa feita pelo Instituto do Câncer, com auditores indicados pelo químico que distribuiu a droga por longos anos, confirmou a total ineficácia do medicamento. Os médicos que coordenaram esse estudo, e o suspenderam, afirmaram que seria totalmente irresponsável e antiético continuá-lo.
É lamentável que situações como essas ocorram no Brasil. Desejamos adentrar no rol das grandes potências, mas continuamos com uma mentalidade incapaz de sustentar nossos argumentos no conhe-cimento. Joga-se para a torcida. A ciência e o saber foram deixados de lado nesse episódio. Nem a espe-rança justifica tal barbaridade. A fosfoetanolamina era, e continua sendo, uma farsa.

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