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ESPORTES

Agulha da discórdia

11/07/2018 08:04
Foto por Daniel Búrigo (Foto: Daniel Búrigo) Clique para Ampliar
Denis Luciano

Impasse entre dois médicos em uma manhã de março de 2016 está conectado a uma polêmica resolução desta semana do Conselho Federal de Medicina (CFM). Estão proibidas as prescrições em todo o Brasil de tratamentos de ozonioterapia. Sem saber, o Criciúma ajudou a ilustrar, há mais de dois anos, esse cenário nebuloso de uma fatia da medicina alternativa voltada ao esporte.

“Ele chegou com uma maleta dizendo que faria umas aplicações no Róger Guedes, e que não podia dizer o que aplicaria, que era uma experiência de consultório”. A revelação, do médico Mário César Búrigo Filho, o Marinho Búrigo, então diretor do Criciúma, retorna àquele 12 de março, 27 meses atrás, e refere o atacante, hoje no Atlético Mineiro, e Augusto Ferreira, médico graduado pela Universidade Federal do Pará e que se apresenta como presidente da Sociedade Científica de Saúde Integrativa.

Ferreira chegou ao Criciúma por intermédio de um amigo do presidente Jaime Dal Farra. E apresentou um tratamento que aceleraria a cura de lesões. “O Róger nem estava machucado”, lembra Marinho, que de pronto não autorizou a intervenção. Ferreira insistiu sem sucesso, com aval de Dal Farra e do técnico Roberto Cavalo. No dia seguinte, Róger jogou pelo Criciúma que venceu o Brusque por 1 a 0 pelo Catarinense.

 

O tratamento em Sorocaba

Para surpresa de Marinho, no mesmo domingo do jogo com o Brusque, dois atletas então lesionados, o volante João Afonso e o atacante Jheimy, foram embarcados pela diretoria em um voo para São Paulo. “Sem a minha autorização, foram tratar na clínica deste médico em Sorocaba”, resgata Marinho. O diretor exigiu explicação. Acabou demitido.

Ao mesmo tratamento que Augusto Ferreira indicou para Róger Guedes foram submetidos João Afonso e Jheimy. “As lesões agravaram. O João levou quatro meses para recuperar. O Jheimy, dois”, cita Marinho. Na clínica em Sorocaba, os dois recebiam injeções constantes. “Nunca soubemos ao certo o que aplicaram neles”, explica Marinho. Depois veio à tona que se tratava da ozonioterapia, procedimento agora proibido pelo CFM. “Parte do sangue deles era retirado, se fazia uma manipulação e depois devolviam ao organismo do atleta”, conta o ex-médico do Criciúma.

Daí veio o conteúdo da denúncia que Marinho Búrigo fez ao Conselho Regional de Medicina de São Paulo (CRM-SP).        Na última segunda-feira, o órgão se pronunciou. “Dois especialistas, um deles da Câmara Técnica de Medicina do Esporte, sugerem a condenação de Augusto Fer-reira por infringir cinco artigos do Código de Ética Médica”, informa Marinho. “Estou aliviado. O tempo provou que o nosso alerta estava correto”.

 

Ozonioterapia e dopagem investigada

Entre as irregularidades citadas no processo estão desrespeito à relação médico e médico, médico e paciente e prática de tratamento que pode induzir a doping. “Há artigos de autoridades mundiais que classificam a ozonioterapia como indução ao doping”, adverte o ex-diretor médico do Criciúma.

O clube garante que se cercou de cuidados. A Agência Brasileira de Controle de Dopagem enviou técnicos ao Criciúma pouco depois da denúncia. “Fizeram exames nos jogadores e não constataram doping”, afirma o diretor jurídico do Tigre, Albert Zilli dos Santos.

“Não sei direito como foi o tratamento lá em Sorocaba”, relata o volante João Afonso, atualmente no elenco do Goiás. Ele lembra que a lesão sofrida no Criciúma foi a primeira na carreira. “O João  Afonso precisou de tratamento clínico para conter uma infecção que chegou a formar um abscesso na coxa por causa das injeções”, refere Marinho. Jheimy, hoje no Sampaio Corrêa, precisou de meses para voltar à ativa. “Joguei pouco no Criciúma. Fui ter ritmo de novo no Brasil de Pelotas”, emenda João Afonso.

Contactado pela reportagem, o médico Augusto Ferreira não se pronunciou. Ele já encaminhou sua versão ao CRM paulista na fase de investigação interna e terá amplo direito de defesa no julgamento. Em processos como este, há o risco de advertência ou até suspensão e perda do registro profissional.

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