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ESPECIAL

Construção centenária da fé

17/09/2017 21:01
Construção centenária da fé

Há um século, fiéis entregam o coração à Catedral São José para que ela seja o coração da cidade

Mayara Cardoso
Renan Medeiros
redacao@atribunanet.com


Palco de sacramentos, despedidas e até revoluções, igreja faz parte da vida da comunidade (deslize sobre a imagem para comparar)
(Foto histórica: acervo de Maria Inês Conti | Foto atual: Renan Medeiros)


Uma história que se confunde com a do município e do povo. De Cresciúma a Criciúma, a capela de madeira construída no fim do século 19 deu lugar, em 1917, a uma igreja que, um século depois, estaria entre as mais belas de Santa Catarina. A Catedral São José é um edifício na Praça Nereu Ramos construído com tijolos e cimento alicerçados sobre a fé de um povo que nunca se distanciou dos costumes cristãos trazidos pelos colonizadores.

Isso é algo que não tem explicação racional. É algo da fé. Tão bonito e tão grande que nós não podemos tentar explicar racionalmente",

Dom Jacinto Inácio Flach,
bispo da Diocese de Criciúma
Hoje, mais que templo religioso, ela é cartão postal e, conforme as palavras do bispo diocesano Dom Jacinto Inácio Flach, um oásis em meio aos dias áridos.

Em tempos de superficialidade, a Catedral propõe aos fiéis entrega e intensidade. A grandeza, abençoada e pensada em cada centímetro é cuidada tal qual os espíritos dos frequentadores, para que sejam ser plenos, abertos e puros. Um templo imponente ao qual os fiéis entregaram os corações para que ele se tornasse o coração de Criciúma.

Fé multiplicada

As dimensões tomadas pela pequena igreja construída para que os imigrantes italianos pudessem se reunir e celebrar a fé não eram imaginadas na época. Entre reformas e ampliações, a capela pequena se tornou uma ampla igreja, digna de ser escolhida, há 19 anos, como Catedral da Diocese de Criciúma.

A explicação para a prosperidade de uma comunidade que cresceu alicerçada na fé, conforme o bispo, vai muito além do que a ciência pode mensurar. “Isso é algo que não tem explicação racional. É algo da fé. Tão bonito e tão grande que nós não podemos tentar explicar racionalmente. Podemos avaliar, admirar e dizer ‘vejam só aquela pequena capelinha que os imigrantes trouxeram e os que os sucederam não deixam para trás, pelo contrário, fizeram ela ser o que é hoje’. Podemos nos maravilhar e agradecer a Deus e ao povo”, considera.



Ponto de renovação de energias

Situada no local conhecido como o coração de Criciúma, a Praça Nereu Ramos, a igreja serve de referência para que fiéis procurem aconchego e tranquilidade. O ritmo de pessoas entrando e fazendo orações individuais mesmo sem que qualquer celebração esteja acontecendo é intenso. Pedidos, agradecimentos, perguntas a serem respondidas, segredos para dividir. Seja qual for o motivo que as levam até lá, as portas estão sempre abertas.

A localização privilegiada, somada ao fervor de sua comunidade empenhada em ajudar e ao carisma do pároco, faz com que, cada vez mais, conforme Dom Jacinto, a Catedral pulse a energia necessária aos dias de quem a rodeia. “Ela se tornou um pouco o coração de tudo. Irradiando toda a espiritualidade do povo. É um ponto de referência para aqueles moram e trabalham pelo Centro e procuram rotineiramente um momento especial para iniciar o seu dia”, comenta.

Para ele, esse hábito é precioso em meio aos dias de caos encarados frequentemente. “As pessoas precisam desse ambiente. No contexto que vivemos com muita correria, trabalho, muito stress em todos os corações, as pessoas sentem mais necessidade de achar um pequeno oásis, se encontrar, achar fôlego, força para seguir com calma, paz e serenidade. É lá que elas encontram tudo isso”, garante.

Para o bispo, vida estressante da atualidade torna a igreja convidativa: "as pessoas sentem necessidade de achar um oásis"



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Somos privilegiados por terem preservado um logradouro, em terrenos particulares, que posteriormente se transformaria em uma importante praça, tendo a igreja como propulsora do movimento",

Mário Belolli,
historiador

Dedicação e cuidado há um século

Os 100 anos comemorados neste domingo são da atual igreja. Mas por cerca de duas décadas antes da inauguração, realizada em 17 de setembro de 1917, o local já abrigava uma capela construída de madeira. Segundo o historiador Mário Belolli, este era o único material disponível à época. “Com o desenvolvimento mais relevante de Criciúma, em virtude da descoberta do carvão e seu fornecimento para abastecer os navios a vapor brasileiros durante a Primeira Guerra Mundial (1914-1918), além das serrarias, surgem as olarias, quando então foi pensada a construção de uma nova igreja, agora de alvenaria”, explica o pesquisador.

De lá para cá, foram incontáveis as transformações pelas quais a igreja passou. Não é exagero dizer que cada centímetro da Catedral São José é pensado e cuidado com atenção. Quem passa frequentemente pelo local sabe que é comum ver pessoas realizando limpezas e pequenos reparos na edificação.

A última grande restauração do espaço foi feita sob os cuidados do religioso Renato Koch e entregue oficialmente no dia 28 abril de 2012. Entre tantos detalhes preservados destacam-se principalmente o tradicional órgão musical, bem como a pintura Assunção de São José, feita por Willy Zumblick, na década de 50.

Segundo Mário Belolli, a obra foi um dos primeiros afrescos de Zumblick no Brasil, ainda no início da carreira. “Na reforma da igreja fui consultado sobre essa obra. Fui de opinião que ela permanecesse, pois se trata de um dos importantes patrimônios históricos da igreja”, relata Belolli. O historiador considera que a cidade deve valorizar o ambiente que se criou na área central, em parte graças ao templo. “Posso dizer que somos privilegiados, por terem preservado um logradouro, em terrenos particulares, que posteriormente se transformaria em uma importante praça, com todos os mecanismos de lazer, tendo a igreja como a principal propulsora do movimento”, afirma.

Somadas, todas as características do espaço o tornam único e especial, o que, para Dom Jacinto, é mérito da comunidade. “Ali percebemos uma participação sempre muito grande da comunidade. É uma igreja muito amada e valorizada pelo pároco, pelos voluntários e pelos fiéis. O povo aqui não tem isolamento. Ajuda mesmo! Me orgulho muito disso. Podemos dizer que nosso povo tem fé e não uma fé teórica, uma fé prática, viva, do dia a dia”, completa o bispo.




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Entusiasmo e sensibilidade de uma liderança

Pároco cativou a comunidade desde que chegou e cada vez mais agrega fiéis aos encontros da Catedral
(Foto: Daniel Búrigo)

Há cinco anos como pároco da Catedral São José, Antônio da Silva Miguel Júnior divide com o povo seu entusiasmo com as causas da igreja e, usando do espírito jovem e sensível, envolve cada vez mais pessoas em sua energia. Prova disso é a mobilização em prol da comemoração dos 100 anos da igreja de São José.

Com a missão de liderar os trabalhos na principal paróquia da Diocese, o sacerdote encarou a tarefa com humildade e hoje se alegra com o resultado. “Encaro como uma missão. Sinto-me honrado por estar à frente da catedral em um momento tão significativo. Sou agradecido a Deus, ao nosso bispo e à igreja, por terem me confiado esse trabalho, que não é motivo de envaidecimento algum e sim significado de servir, de trabalho”, afirma o padre Antônio Júnior.

Este domingo ficará marcado não só como uma realização para o padre, mas para toda a cidade e extremo Sul Catarinense acolhidos pela Diocese. Os detalhes foram cuidados, segundo o sacerdote, com muita dedicação e autocobrança para que o momento vivido traga bons sentimentos aos que o presenciarem. “Queremos que tudo saia perfeito, que possa agradar e encher não só os olhos dos fiéis, mas sobretudo o coração. Que tudo que se faça aqui seja realmente para o avivamento da fé, para trazer alegria aos corações, orgulho sadio de fazer parte da história da igreja”, completa.

Para ele, além do principal papel da igreja que é, é claro, evangelizar, ela também cumpre a função social, comprovada pelo crescimento da cidade entrelaçado ao dela. “As escadarias da Catedral já foram palco para tantas apresentações, manifestações e continua sendo ponto de concentração para os mais diversos encontros. Nesse sentido ela exerce função de unidade, de agregação, de defesa dos direitos humanos, Igreja como a mãe que acolhe os filhos, sobretudo os mais necessitados”, completa.




Pároco participativo

Contando com uma equipe de colaboradores voluntários de aproximadamente 200 pessoas voluntárias dedicadas à comemoração de centenário, padre Antônio Júnior tem o trabalho reconhecido por seu superior e responsável por ter designado tal tarefa, o bispo.

Para Dom Jacinto, um dos diferenciais do pároco é ter o discernimento de, ao mesmo tempo, olhar para a comunidade em geral e enxergar o fundo do coração das pessoas. “Tenho muitos testemunhos de pessoas que frequentam ali e que falam que o jeito como ele se comunica e é interessado em cuidar de tudo e isso tem muito a ver com toda a caminhada. Ele, assim como os outros padres que construíram essa história, tem o mérito de tocar o povo. Isso me alegra muito”, salienta.




“Recebi uma graça nesta igreja e vim mais uma vez agradecer. Essa Catedral faz parte de um milagre na minha saúde e eu não perderia essa celebração”,

Jandira Costa Serafim,
83 anos


“Sou coroinha e participo muito da igreja no meu bairro. Vim acompanhar no Centro porque é uma celebração muito especial e foi maravilhoso”,

Rafaela da Silva Fernandes,
11 anos


“Não tenho palavras para mensurar a minha emoção em fazer parte desse momento único. Fui batizado, fiz minha primeira comunhão, me crismei e hoje trabalho aqui. Isso é parte da minha vida”,

João Henrique da Silva Carlos,
23 anos


“Garanti meu lugar para acompanhar de pertinho esse momento único para a nossa igreja",

Tereza Rodrigues Milanez,
75 anos


(Foto: Mayara Cardoso)



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A paroquiana mais idosa

Maria foi lembrada na celebração de Dedicação da Catedral
(Foto: Mayara Cardoso)

A professora aposentada Maria de Lourdes Hülse Lodetti tem uma relação próxima com a Catedral São José. Desde que chegou a Criciúma, em 1940, presenciou várias transformações na cidade, muitas delas conduzidas pelo destino da própria igreja. Em 2014, foi a própria Maria de Lourdes quem celebrou os 100 anos de idade, em missa na catedral, que ficou lotada de ex-alunos dela, muitos deles agora ocupando posição de destaque na sociedade.

Com uma saúde perfeita, a moradora da Rua Lauro Müller se esforça e puxa pela memória o tempo em que ajudava a organizar a Semana Santa. “No começo, a procissão só passava um pedacinho na frente da igreja. Só. Havia pouca gente. Depois é que foram se acostumando e decidiram que Criciúma não pode ficar só naquele pedacinho”, conta.

Lembrança
viva


Maria de Lourdes tem viva na memória a lembrança de um fato ocorrido no dia 13 de abril de 1952. “O padre Wilson levou um choque e caiu do púlpito”. O padre era Wilson Laus Schmidt, vigário por quem Maria de Lourdes, assim como toda a comunidade, tinha grande apreço. Com o acidente, precipitou sobre os bancos, foi socorrido e levado inconsciente para o Hospital São José. Lá, fiéis se reuniam para rezar e desejar rápida melhora ao sacerdote. O padre se recuperou, voltou à rotina e, cinco anos mais tarde, tornou-se bispo. “Ela sempre foi muito atuante, ajudou muito os padres”, lembra a filha de Maria, Thamar Lodetti Daros. “Agora ela fica feliz porque todos os anos a procissão de Corpus Christi tem um altar aqui na frente de casa”, acrescenta.

Neste domingo, na missa de Dedicação da Catedral, Maria recebeu uma reverência especial graças à contribuição que deu à igreja durante toda a vida.

Atualmente, a aposentada conserva a maior parte das lembranças apenas na memória. Quase todas as fotografias que ela tinha foram perdidas na enchente de 1974. A boa notícia é que guardar lembranças e contar a quem quiser ouvir não representa dificuldade alguma para Maria.


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Orgulho de fazer parte

Maria Inês participou ativamente de toda a preparação para o Centenário, além se dedicar há anos a outras atividades da paróquia
(Foto: Daniel Búrigo)

Se a história de Criciúma se entrelaça com a da Catedral, o mesmo acontece com a vida de Maria Inêz Conti, de 79 anos. Muito atuante na comunidade, Maria Inêz traz recordações de tempos em que a igreja tinha características muito diferentes. “Lembro das missas celebradas em latim e de como havia um distanciamento com as pessoas. Pude ver de perto as mudanças e fico feliz em reconhecer uma evolução, uma aproximação com o povo”, recorda.

Durante todo este ano, a Catedral São José celebra seu centenário, seja em ações já tradicionais da igreja ou criados especialmente para o ano especial. Entre a programação, dona Maria Inês também deixou a digital, já que participa ativamente da comissão organizadora. Em meio às reuniões, conversas e preparações, o amor pelas histórias vividas, conforme ela, foi inflamado. “Foi muito bom reviver tudo isso. Os tempos que estudei em colégio religioso e estive muito aqui, tantas datas especiais para minha família, tantos obstáculos também vividos e superados. As vitórias e as sombras, tudo faz parte de um conjunto maravilhoso”, declara.

Para ela, o domingo marcará mais uma grande lembrança para a sua coleção junto à igreja. “É uma satisfação muito grande. Eu vivi aqui. Desde sempre faço parte dessa comunidade. Eu me sinto verdadeiramente integrante de tudo isso”, completa.

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Vanderlei trabalha no “quintal” da Catedral e se orgulha de ter feito muitos amigos no local (Foto: Mayara Cardoso)

“Parceria” dia a dia

Se tem alguém que pode afirmar que acompanha de perto, literalmente, o dia a dia da Catedral São José, esse alguém é o pipoqueiro Vanderlei Inácio, que trabalha em frente à igreja desde 1985.

Brincadeira à parte, não dá para negar que, além do pároco, dos funcionários da igreja e dos fiéis mais assíduos, Vanderlei está entre as pessoas que mais acompanha os detalhes do que acontece no local.

Com seu fiel rádio de pilhas em mãos, assunto e simpatia para dar e vender, Vanderlei esteve presente nos últimos 32 anos de história da igreja. “É muito gratificante trabalhar todos os dias aqui. É uma oportunidade muito especial”, garante.



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Com celebração cheia de energia e significados,
Catedral passa por Dedicação


Ao som das canções entoadas pelo Coral Encantos, de Florianópolis, centenas de fiéis acompanharam, na manhã deste domingo, a cerimônia de Dedicação da Catedral São José. O rito é raro e torna o local ainda mais sagrado aos olhos da igreja. Foram duas horas de louvor e fé que certamente não sairão das lembranças dos presentes.

De acordo com o bispo Dom Jacinto Inácio Flach, uma igreja passa pela cerimônia de Dedicação quando está claro que ela está pronta e assim será preservada. “A partir de agora a estrutura dessa igreja deve ser assim mantida. Esse rito dedica todas essas colunas, representando toda a estrutura, à Deus e significa que, haja o que houver, esse local nunca mais poderá ser outra coisa se não uma igreja, a casa Dele”, explica.

Liderada pelo bispo, a celebração contou com a aspersão da água benta, unções do altar e das colunas do edifício, a incensação de todo o espaço, a colocação da relíquia no altar, a iluminação e os ritos da Palavra e da Eucaristia.

Missa especial neste domingo celebrou os 100 anos da Catedral (Fotos: Daniel Búrigo e Mayara Cardoso)
Relíquia recebida

Um dos pontos altos da celebração foi a chegada da relíquia que traz um pequeno pedaço de pano que traz o sangue de São João Paulo II. Ela foi recebida em forma de presente através de um pedido do pároco e do bispo da Diocese ao o Arcebispo Emérito de Cracóvia, Cardeal Dom Stanislaw Dziwisz, sendo que ele mesmo entregou ao padre rogacionista e criciumense Wladislau Milak que encaminhou, através de sua família, até a Catedral.

Ao final da celebração, foi descerrada a placa alusiva à Dedicação da Catedral e aos seus 100 anos de inauguração. Após a bênção do tabernáculo eucarístico e bênção final, todos tiveram a única oportunidade de beijar e tocar o altar ungido onde foi depositada a relíquia de São João Paulo II.

Conforme padre Antônio Júnior, a Igreja lhes concederá indulgência plenária, somando o beijo e veneração do altar no dia da consagração ao ato de confessar-se, participar da missa, comungar e rezar nas intenções do Papa.





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