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Henrique Packter

OTTO FEUERSCHUETTE, segundo médico em Tubarão

18/04/2019

COMEÇO POR DESEJAR A TODOS FELIZ PÁSCOA!
A PÁSCOA, especialmente para os judeus, celebra a libertação (do jugo egípcio) e ascensão social (de escravos a homens livres). Celebremos pois, a liberdade e rezemos pela prometida e contínua ascensão social.
CONTINUO ESTAS CELEBRAÇÕES PASCAIS COMEMORANDO O ENCONTRO DOS DOIS DIÁRIOS JORNALÍSTICOS CRICIUMENSES NUM SÓ, AUGURANDO QUE O ENCONTRO SEJA DURADOURO E EXITOSO.
TERMINO, APRESENTANDO MINHA PÁGINA SOBRE PIONEIROS MÉDICOS DA REGIÃO SUL CATARINENSE, BIOGRAFANDO AINDA, OTTO FEUERSCHUETTE, SEGUNDO MÉDICO EM TUBARÃO
ÚNICO DOCUMENTO DA INVASÃO DO SUL CATARINENSE, ESCRITO POR SEU COMANDANTE
INVASÃO DE SC
Ernesto Lacombe redigiu, logo após a revolução, o manifesto Invasão de SC pelo Setor Leste. De acordo com Walter Zumblick, este documento é o único existente sobre o assunto; por isso transcreveu-o em sua totalidade e literalmente no livro Este meu Tubarão…! 1º Volume. Edição do autor, Tubarão, 1974. No entanto, o texto apresenta muitas informações equivocadas que procuro corrigir.
O MANIFESTO
Saímos de POA, quinta feira, 2.10, às cinco horas da manhã e chegamos a Torres ás 22 horas. Éramos nove companheiros: Júlio Nascimento, Ary Santerre Guimarães, Romário Fernandes, Ernesto Lacombe Filho, o jornalista Antunes Almeida, Trifino Corrêa, três motoristas e eu. (Ernesto Lacombe Filho trabalharia em Criciúma como bioquímico no Hospital Santa Catarina e no subsolo do prédio ainda existente na esquina da Conselheiro Zanette com a Centenário).
PRÓPRIOS E CHASQUES (RECADOS)
Em Torres, Trifino Corrêa, incumbido de chefiar militarmente a coluna de invasão, entendeu-se com o Cel. Krás Borges, Intendente daquele Município. Terminadas as confabulações, apesar da hora avançada (uma e meia da manhã), Krás Borges atendeu as instruções recebidas, enviando próprios e chasques a todos os distritos do seu município.
No dia 3, sexta feira, pela manhã, tomei caminhão e segui com meu filho Ernesto às imediações de Araranguá, onde cheguei ás 11 horas. Mandei chamar nossos companheiros Fontoura Borges e Pompílio Bento prevenindo-os de que, naquele dia, às 5 da tarde, invadiríamos o município e pedia-lhes conseguissem reunir um grupo para nos auxiliar na ocupação da vila. Tudo consertado, regressei a Torres onde cheguei 1,30 horas da tarde, dando conta da missão que me impusera. O coronel Krás Borges reuniu até 3 horas apenas 18 homens e com esse grupo, oitenta carabinas, uma metralhadora e dez mil tiros. Saímos de Torres transpondo o Mampituba rumo a Araranguá. Haveria em Torres depósito 300 armas e 30 mil tiros. Os fuzis (Manlicher) engraxados e sujos, não funcionavam regularmente. De cada dez, seis não disparavam o gatilho. Por isso, apenas nos servimos de oitenta armas, escolhidas entre o lote existente.
Precisamente ás cinco horas da tarde de 3.10, nos achávamos a 9 km de Araranguá onde Fontoura Borges, Pompílio Bento, Pacífico Nunes, para somente citar o nome desses três, que tanto se distinguiram no decorrer da luta, e mais vinte e cinco homens, a cavalo, nos esperavam entre aclamações.
Às 6 da tarde entrávamos na vila sem encontrar nenhuma resistência. Tomamos o Telégrafo, todas as repartições estaduais e federais e com o resto dos companheiros incorporados naquela vila, completamos 50 homens. Consoante acordo que fizéramos em POA com o Cel. João Alberto e Oswaldo Aranha, assumi ali a chefia civil do movimento do Sul de SC, nomeando (...) Fontoura Borges, para Prefeito do município.
POR UM LADO REVOLUÇÃO É BOM,
POR OUTRO TEM TRIFINO CORRÊA
Ás 10 horas da noite, ficando Fontoura Borges em Araranguá com finalidade específica de reunir mais gente para nos auxiliar e engrossar nossas fileiras, seguimos com 50 homens para Criciúma, ocupada às 3,30 horas da manhã de 4.10, sem resistência.
PARÊNTESIS NO MANIFESTO:
A REVOLUÇÃO EM CRICIÚMA
Em 10.10.1930, cinco dias após tomar posse como prefeito de Criciúma, Cincinato Naspolini enviou correspondência aos munícipes, requisitando material de consumo, veículos e outros. Documentos da época reclamam das condições em que veículos foram devolvidos a seus donos (Gregório Michels, em 10.10.1930, relaciona as peças levadas de seu Ford typo A, num total de 847 mil réis). Egydio A. da Silva, de São Bento Baixo, teve requisitado seu caminhão Ford número 10 para transporte de tropa de Torres a Araranguá. Santi Vaccari, governador civil em Araranguá, escreveu em 19.10.1939, no verso do documento que requisitava o caminhão, carregado para o norte do estado a serviço da Legião, pelo capitão Otelo Frota, comandante da Legião Osvaldo Aranha,.
Também Henrique Waterkemper, de São Bento Baixo, teve seu automóvel Chevrolet requisitado, assim como Basílio Aguiar, de Nova Veneza, que emprestou seu caminhão Chevrolet com cabine, 6 cilindros, placa número 15 e Giácomo Búrigo, de Mãe Luzia, que perdeu o caminhão Chevrolet , modelo 1929, placa número 10. Em 12.10 requisitou-se 311,5 caixas de gasolina, 14 galões de óleo à Standard Oil Company of Brazil de Criciúma.
João Targhetta, proprietário do Hotel Brasil, teve pendurada uma conta de mais de trezentos e vinte mil réis, hospedagem de revolucionários. Calote também contemplou os hoteleiros Lodetti e Angeloni.
O prefeito Cincinato Naspolini em duas folhas de papel almaço ordenou as dívidas que deveriam ser quitadas pela municipalidade e   que somavam quase 60 mil réis.
CONTINUA A SAGA DE ERNESTO
LACOMBE, POR ELE DESCRITA
Tudo disposto na parte civil por mim e na militar pelo capitão Trifino Corrêa, seguimos em caminhões às 6 horas da manhã alcançando Urussanga às 10 do mesmo dia, onde entramos, apreendendo algumas armas da Polícia Catarinense. Prendemos o capitão Mello da Força Pública, comandante do destacamento de cinco homens. Pelas más condições da Estrada de rodagem, continuamos a marcha por ferrovia. De trem em Urussanga, seguimos para Tubarão chegando às 5 horas da tarde, tomando tudo sem oposição alguma. Capitão Trifino ficou na estação da Estrada de Ferro e eu com mais 8 homens nos dirigimos à Prefeitura onde o Prefeito Otto Feuerschuette e auxiliares nos aguardavam para entrega das chaves da cidade. Após as formalidades usuais nomeei autoridades, dispus tudo na parte civil e demiti-me da ação militar que vinha desempenhando. (Esta data também marca a retirada de OTTO para sua fazenda, abandonando a prática da Medicina, período que se estende até 1935. Na fazenda, OTTO é intimado a entregar 3 reses destinadas à alimentação das tropas revolucionárias. Os animais foram escolhidos a dedo pelos militares, na Fazenda Campestre e levadas para abate. Ernesto Lacombe informado, constatou a excelente qualidade do gado e mandou devolvê-lo, declarando: devolvo ao Dr. OTTO os animais; são de qualidade para exposição e não para serem abatidas).
LACOMBE X TRIFINO
No manifesto, LACOMBE procura esclarecer seu relacionamento problemático com TRIFINO e o motivo das discórdias entre ambos.
Desde meu primeiro contato com Trifino Corrêa, verifiquei que ele não tinha competência militar, educação necessária, nem era portador de conduta ilibada como seu posto exigia. Dada a influência que conquistei quando da campanha eleitoral da Aliança Liberal nos municípios do sul, só a mim queriam obedecer as forças que estavam se formando e as que se haviam já incorporado desde Araranguá. Não querendo eu estabelecer qualquer conflito de mando e justamente porque meu objetivo era bem mais elevado que obter glórias esparsas, agradeci aos amigos o pedido que me faziam de comandar as colunas em organização, deixei que capitão Trifino agisse livremente.
Começa em Tubarão a série de disparates e erros de Trifino Corrêa. Em documento imperioso, escrito pelo coronel João Alberto, se ordenava a Trifino que as forças invasoras marchassem sempre desde a tomada de Araranguá até ocupar a Garganta de Anitápolis, sem preocupação da retaguarda. Trifino, entretanto, desobedecendo essas ordens julgou mais acertado ficar em Tubarão, e por dois dias estacionou completamente.
Em exposição que fiz ao coronel João Alberto e ao General Miguel Costa, frisei a necessidade imperiosa de ocupar imediatamente Laguna e Imbituba, logo depois de tomarmos Tubarão. Trifino se opôs a isso dizendo que só tinha instruções para tomar a Garganta de Anitápolis.
Na tarde de 4.10, logo após nossa chegada correu a notícia de que destroier se aproximava de Imbituba para desembarcar 300 homens. Trifino, incontinente, sem ouvir ninguém, mandou que nossa gente, já diminuída para 30 homens, embarcasse no trem e fosse pernoitar a 4 km da cidade, dentro dos vagões, abandonando a posição tomada que era ótima para pernoitar, sem ficar exposta a qualquer inimigo.
Entramos em Tubarão com apenas 29 homens, porque Trifino Corrêa, quando embarcamos em Urussanga, onde éramos 50, mandou voltar quatro caminhões com vinte e um homens, para, segundo dizia, fazer requisições nas colônias!
Iolanda, filha de Pedro Simon, proprietário do Hotel Progresso de Tubarão, avenida Marechal Deodoro, próximo à gare, no livro Das Raízes ao Fruto, relata que sábado à tarde, 4.10, Ernesto Lacombe mais 4 companheiros lá se hospedam. O Hotel passa a ser o quartel general da Revolução e chegou a fornecer cerca de 600 refeições por dia à soldadesca. Simon além de nada receber pelas refeições e estadias, teve de contratar mais 5 auxiliares de cozinha. Foi conversar com Triffino. Na manhã seguinte chega um caminhão com alguns mantimentos entre os quais, meio boi. Dinheiro, que é bom, nada. Dília Simon, esposa justamente revoltada, refugia-se com os filhos na casa de cunhada. Soldados continuam chegando e se hospedam em potreiro próximo. Permaneciam cerca de dois dias depois seguiam em frente. No livro, a autora registra: (...) capitão Trefino (grande pilantra), destituído por Lacombe quando soube de suas falcatruas. Invocando a Revolução, Trefino requisitava tudo em todas as casas, para depois fugir.
Simon apela para Lacombe sem resultado e até para Eurico Gaspar Dutra, que esteve em visita a Tubarão em 1937, na qualidade de Ministro da Guerra de Vargas. Vinha inspecionar os soldados estacionados na cidade. Simon, partidário de OTTO FEURSCHUETTE, recebe recomendação de Lacombe para ter o máximo de cuidado com o doutor. Porque vendia vinhos de Rio Vargedo (Treze de Maio), sem selos, Simon foi multado por 3 fiscais liberais em 400 mil réis, uma fortuna na época. Daí em diante virou getulista, permanente lenço vermelho ao pescoço.
Martinho Ghizzo, pai de Afonso Ghizzo, era vice do prefeito OTTO FEUERSCHUETTE em Tubarão, 1930. Uma das filhas, Lídia Ghizzo Correa, cunhada de OTTO, prestou depoimento a Amádio Vettoretti (maio, 1991) transcrito no seu livro Subsídios Para História de Tubarão. Começa dizendo: o que aconteceu na minha casa jamais vou esquecer.
O depoimento denuncia o revolucionário corrupto, um gatuno investido nas funções de revolucionário. Mas, suas ações não se revestem de violência, trata-se de assaltante vulgar, alguém que se apropria de bens materiais alheios, o que é uma atenuante, considerando-se o que poderia ter feito.
Estavam todos em casa quando o capitão Trifino a invade. Perguntado quem era, identifica-se.
Abriu a porta e entrou pelo corredor. Ficamos muito aflitos. Era bem bacana, bonitão. Estava de capote, botas, esporas. Quando entrou fazia aquele barulho trac, trac, pisando firme com as botas, porta adentro.
Muito comprida, a casa tinha duas cozinhas, a cozinha velha nos fundos.  Martinho estava deitado no quarto da filha, passara mal a noite, pelo reumatismo no garrão. Levantou-se e atendeu. Trefino foi adiante, onde era o escritório de papai e disse abra esse cofre! Foi aberto. Não lembra o que tirou, mas botou no chão uma porção de papéis, talvez uma arma, mas não achou nada.  Não achou porque papai me chamara lá no extremo do quintal, na véspera, e disse que no fundo da barrica estavam documentos importantes e um pouco de dinheiro para sua mãe. Tinha bastante cordões de ouro que comprara para dar a cada um dos filhos. Deu para cada filho um metro.  E aí fechou bem, antes encheu o restante da barrica de areia.
O cavalo, que muito conhecia o pai, começou a relinchar. Aí ele disse vamos botar bastante comida para ele não relinchar, senão essa gente vai carregar o meu cavalo. Tira Cisma era o nome dele.”
De certa forma um depoimento ameno. Bem distante das revoluções descritas por Érico Veríssimo em O Tempo e o Vento, quando roubar e violentar eram consequências naturais desses movimentos, naqueles tempos.
OTTO, VIANNA MOOG, PETRÔNIO,
CERVANTES, MACHADO &VARGAS
OTTO é filho de seu tempo, tributário da geração pré-1930, sua história devidamente inspirada no cenário histórico-sociológico da cidade de Tubarão no sul catarinense.
VIANNA MOOG pensava que em épocas de decadência surgem pessoas notáveis que se destacam pela coragem, inteligência e sensibilidade. Essas pessoas analisam, às vezes com humor, essa decadência. MOOG encontrou três desses heróis. Petrônio que viveu a queda do Império Romano, Cervantes que testemunhou o fim da Idade Média e do feudalismo e Machado de Assis o grande cronista dos últimos anos do Império no Brasil. Cabe nesta relação ainda um último herói, Getúlio Vargas, da Revolução de 30, que foi o algoz da velha república no Brasil.
PRÓXIMA SEMANA CONTINUA OTTO FEUERSCHUETTE.

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