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Henrique Packter

OTTO FEUERSCHUETTE, segundo médico em Tubarão

09/03/2019

GORRO OU BARRETE
Sendo Otto pessoa alta, seus pés tocavam, às vezes, o leito da ferrovia quando se deslocava em troles nos atendimentos distantes. Este problema foi solucionado pela confecção de um pequeno banco para sentar-se no veículo.
Otto nas fotos mais recentes sempre era visto com gorro branco. Nos ofícios religiosos usava barrete de outra cor. Os filhos mais velhos de Otto recordam sempre tê-lo visto com o gorro. Dizia usá-lo porque sempre sentava à frente quando se acomodava nos troles. Mas, o vento, cortado pela aba do chapéu, atingia-lhe a cabeça provocando forte cefaleia. Amarrando lenço sobre a fronte, abaixo da pala do chapéu, aliviava sensivelmente a dor de cabeça.  Vem daí o hábito, tornado característica de Otto, uso permanente de gorro, jamais dispensando-o, mesmo para dormir.
MARTINHO GHIZZO, SUBPREFEITO E SOGRO
Nascido na Itália em Farra de Soligo, Treviso, saiu da Itália com o pai, viúvo, em 1887, aos 11 anos de idade, para estabelecer-se em Azambuja (hoje município de XIII de Maio).
Após a Constituição de 1928 o cargo de subprefeito era de livre admissão do prefeito. Otto escolheu-o para este cargo.
Deixou importantes obras como a abertura da Serra do Doze, da estrada que liga Tubarão a São Ludgero, várias pontes, estrada de ferro Próspera-Criciúma. Nesta última obra contratou cerca de 400 colonos (informação do filho João Ghizzo), tornando-se um dos homens mais ricos da região.
Trabalhou como empreiteiro de estradas de ferro associado a Júlio Boppré, industrial proprietário de duas fábricas de banha, estabelecido com casa de negócio em Rio Coruja, município de XIII de Maio. Também era fazendeiro e político. A fábrica de banha Planeta, de Martinho Ghizzo, tinha sua produção levada por carro de boi até Pedras Grandes seguindo dali por trem até Laguna onde era embarcada em navio para ser consumida no RJ.
Martinho possuía escritório no RJ, dirigido por algum tempo pelo filho Afonso Ghizzo (28.2.1910, Tubarão/1980, Araranguá), filho de Martinho Ghizzo e de Vitória Furghesti Ghizzo, casou-se em Araranguá, 1933, com Alice Furtado Ghizzo. O casal teve cinco filhos, dentre eles o médico e político Martinho Ghizzo e o promotor público de Justiça Afonso Ghizzo.
Afonso, filho de Martinho Ghizzo é pai do médico e político araranguaense, Martinho Ghizzo Neto, graduado pela Faculdade Federal de Medicina de Santa Maria, RS. 
Na segunda fábrica de Martinho Ghizzo em Lageado, divisa de Tubarão e XIII de Maio, canoas movidas a vela transportavam pela lagoa de Garopaba, a banha e charque de carne de porco para Laguna, seguindo por navio ao RJ. No Cine Azul de Tubarão, de sua propriedade, ao lado do Hotel Mussi, exibiu-se com grande sucesso Pedro Raymundo. No dia do espetáculo multidão nunca vista esperava o início da apresentação frente ao cinema. Amedrontado pela enormidade do público que tentava entrar, Martinho retardou o início do show. Mais da metade das instalações do Cine foram depredadas pelo público alucinado quando adentrou a casa. Otto Furghestti, sobrinho de Martinho, contou em livro as histórias do Cine Azul. 
Durante a Segunda Grande Guerra, o cinema foi totalmente depredado. Dispunha ele de gerador elétrico, pois eram frequentes as quedas de energia. Uma vez ligado, o gerador produzia barulho ensurdecedor na sala de projeção, estrondos produzidos por batatas colocadas dentro do seu escapamento, brincadeirinha de vizinhos.
PEDRO RAYMUNDO
Nasceu a 29.6.1906, Imaruí, SC, falecendo a 9.7.1973, RJ, 67 anos.
Autor e intérprete de Adeus Mariana, um dos maiores sucessos da música popular brasileira de todos os tempos, gravada em 1943, 75 anos atrás.
Adeus Mariana
Nasci lá na cidade, me casei na serra
Com minha Mariana moça lá de fora
Um dia estranhei o carinho dela
Disse: - adeus Mariana, que eu já vou embora!

É gaúcha de verdade de quatro costados,
Só usa chapéu grande de bombacha e espora,
E eu que estava vendo o caso complicado
Disse: - Adeus Mariana, que eu já vou embora!

Nem bem rodemo o dia me tirou da cama
Selou o meu tordilho e saiu campo a fora
E eu fiquei danado e saí dizendo:
- adeus Mariana, que eu já vou embora!

Ela não disse nada, mas ficou cismando
Se era desta vez que eu daria o fora
Segurou a açoiteira e veio contra mim
Eu disse: - larga Mariana que eu não vou embora!

E ela de zangada foi quebrando tudo
Pegou a minha roupa e jogou porta a fora
Agarrei, fiz uma trouxa e saí dizendo:
- Adeus, Mariana que eu já vou embora!

Filho do pescador e sanfoneiro João Felisberto Raymundo, tocava sanfona desde os oito anos. Mais tarde, integrou em Imaruí, a banda Amor à Ordem, apresentando-se também em festinhas. Tornou-se músico de sucesso cantando melodias gauchescas acompanhando-se ao acordeão, instrumento de um fole, um diapasão e duas caixas harmônicas de madeira.
Se vivo fosse, Pedro Raymundo estaria completando 112 anos. Já velho e alquebrado, retornou ao sul de SC. Os últimos meses de sua vida passou-os em Lauro Muller, onde construiu casinha ao lado de uma bica d’água, ao pé do morro da Igreja Matriz. Pescador até os 17 anos, passou a trabalhar na construção da Estrada de Ferro Esplanada-Rio Deserto, SC, em 1923. Casado desde 1926, morou em Lauro Muller, Blumenau e Laguna SC, fixando-se em POA, RS, 1929.
No livro Morro da Fumaça e Sua Divina e Humana Comédia, CLAUDINO BIFF entrevista JORGE CECHINEL, 27.7.1988, aos 84 anos, pág.76. Ele assim se refere ao notável músico, intérprete e compositor: “Dancei muitos bailes ao som da sanfona dele, em Morro da Fumaça, Rua do Fogo, no armazém da estrada de ferro. Ele e muitos operários vieram do Imaruí. Era bom no teclado já naquele tempo. Ele foi o filho mais ilustre do Imaruí”.
Em POA foi condutor de bondes e inspetor de tráfego, tocando sanfona em cafés do Mercado nas horas de folga. Em 1939 vai trabalhar na Rádio Farroupilha, POA, onde organizou o Quarteto dos Tauras. Em 1942 excursiona pelo interior do RS e em 1943 vai ao RJ onde se apresentou no show Muraro da Rádio Mayrink Veiga, e em programas da Rádio Tupi. Levado por Almirante para a Rádio Nacional, contratado pela emissora, transferiu-se definitivamente para o RJ. Lançou em 1943 pela Colúmbia seu primeiro disco, com o choro Tico-tico no terreiro e o xotis Adeus Mariana (ambos de sua autoria).

Descontração e exuberância valeram a Pedro Raymundo o slogan de O Gaúcho Alegre do Rádio: alternava nas apresentações, músicas alegres e outras sentimentais. Primeiro artista típico gaúcho a alcançar fama nacional, atuou nos filmes Uma luz na estrada (Alberto Pieralise,1949) e Natureza gaúcha (Rafael Mancini, 1958).
Apresentava-se com bombachas, lenço no pescoço, botas, esporas, chapéu e guaiaca. Percebendo a aceitação do traje regional, Luís Gonzaga tomado de coragem, passou a apresentar-se como sertanejo nordestino.
PEDRO RAYMUNDO EM LAURO MÜLLER E CRICIÚMA

Em 6.8.1968, uma terça-feira, aos 62 anos, PEDRO RAYMUNDO procurou-me como cliente no HSJ de Criciúma. Vinha de Lauro Müller, declarando como profissão ser radialista e residir no RJ. Estava sem visão no olho direito e via 0,8 no olho esquerdo, sendo 1,0 a visão normal. Fora operado de Glaucoma no RJ pelo grande Professor Luiz Eurico Ferreira, dois anos antes. A pressão intraocular (PIO) estava normalizada, mas já apresentava catarata incipiente em ambos os olhos. Tinha diabetes e fazia uso do medicamento Diabinese. Receitei-lhe óculos de grau. Submeteu-se a exame de campo visual na mesma data.

Retornou em 24.1.1973, uma quarta-feira, sendo atendido pelo meu irmão Boris Pakter. queixando-se de tontura. Retornou em 14.3.1973 com pressão arterial 12X6, PIO 18 mm em ambos os olhos e estava em tratamento de úlcera gástrica. A visão do olho esquerdo era 0,7 com óculos e repetiu exame de campo visual em 17.3.1973. Faleceria 4 meses depois em 9.7.1973, no RJ, de complicações do diabetes.

Obras
Saudade de Laguna, valsa, 1943; Se Deus quiser, xótis, 1943; Adeus, Mariana, xótis, 1943; Tico-tico no terreiro, choro, 1943, Adeus, moçada, polca, 1944; Escadaria, choro, 1944; Gaúcho largado, toada, 1944; Mágoas de amor, tango, 1945; Meu coração te fala, valsa, 1945; Chico da roda, chorinho, 1947; Na casa do Zé Bedeu, polca, 1947; Tá tudo errado, polca, 1948; Prece, tango, 1950; Oriental, baião, 1954; Sanfoninha, velha amiga, polca, 1961.
Walter Filho, locutor na Rádio Cruz de Malta declarou: “tive a honra de ler as cartas endereçadas a ele (...)”. Isto, pelo fato de Pedro Raymundo estar praticamente cego pelo glaucoma.
O depoimento de Walter Filho da rádio ALESC, Assembleia Legislativa de SC, em Florianópolis, é valioso também, por registrar que Pedro Raymundo no final da vida continuava o homem simples que cativou o país pela criatividade, voz e pelo som de seu acordeão, que não era de teclado.
Walter lembra: “A sanfona, hoje exposta no museu de Laguna, ficava embaixo da mesa de locução. Seguidamente tentávamos, eu e outros colegas de trabalho, tirar algum som, mas não tinha jeito! Ela só obedecia ao dono, o artista. Isto se passou em 1972 e o programa de rádio era das 6 ás 7 da manhã. Pedro Raymundo, na maior parte dos programas tocava e cantava ao vivo. Por isso, a sanfona ficava no estúdio da Cruz de Malta. Quando terminava Pedro Raymundo Amanhece Cantando saía para comprar pão e depois divertia-se com os velhos amigos jogando palito e bocha. Voltou pro RJ onde morreu após complicações do diabetes”.
PAULO CALIL, LÍBANO-LAGUNENSE
Paulo Calil, nasceu a 28.7.1878 no Líbano, vindo para o Brasil em 1895, 17 anos de idade. Naturalizado brasileiro, radicou-se na Laguna.
Casou-se em Tubarão,1905, com Diba Calil, cidadã síria, filha de Calil Elias Balich. Tiveram seis filhos, dentre eles Armando Calil, advogado, Deputado à Assembleia Constituinte e Legislativa do Estado (1947 – 1951), depois, Procurador e Chefe da Procuradoria da ALESC (1952 – 1968) e Secretário de Estado.
Pery Barreto, quando da morte de Paulo Calil, escreveu Laguna Ficou Menor: “(...) foi um conciliador. Os conflitos de opiniões que agitavam Laguna, muitas vezes se desmoronaram no seu decidido e vitorioso esforço conciliatório”.
Paulo Calil foi comerciante alegre e espirituoso, de atitudes pitorescas, como quando adquiriu lote de tecidos em peças, de um barco que fez água. Colocado o lote em promoção, a preço módico, sua compra teve grande aceitação; passou a misturar (molhando antes), as peças de tecidos encalhadas da loja. A população comentava que aquele estoque não terminava nunca...
Na casa comercial trabalharam grandes personagens citadinos, como Miguel e Batista Abrahão, Donga Mattos, depois tradicionais comerciantes lagunenses. Pedro Raymundo, vindo para Laguna (1927), foi funcionário da casa Novo Paraíso, até transferir-se para POA. Antes, conheceu Manoel e Agenor Bessa, Arnaldo Carneiro, Pedro Maria, Roberto Natividade e João Rosa, o Chicão, formando o Conjunto Choro Chorado (1928).
Paulo Calil construiu prédios na rua da praia, além de sua residência (Gustavo Richard com Barão do Rio Branco) e o edifício do Hotel Paraíso, mais alto da cidade e região. Inaugurado em 1926, possuía 30 quartos, sala de visitas, copa, salão de refeições, cozinha ampla e bem equipada. Habid Succar, depois Abílio Paulo, arrendaram-no.
Construiu prédio onde funcionou a antiga Telefônica, o prédio de sua loja Novo Paraiso, Gustavo Richard nº 114; possuía casas nas ruas Barão do Rio Branco, Carioca, no Magalhães e Mar Grosso. Fazendo fé no futuro da praia do Mar-Grosso, constrói entre 36 e 38, o primeiro hotel praiano da Laguna, o Balneário do Mar-Grosso, rua Engº Gaffrée.
Nunca aprendeu a falar/escrever corretamente o português, falava com forte sotaque árabe, como temos riscadinas e chitinas.
Tradicionalmente distribuía presentes de Natal para a população menos favorecida. Manhã cedo, fila interminável de mulheres, velhos e crianças se formava na porta de sua loja …
Membro da Loja Maçônica Fraternidade Lagunense, ajudou irmãos necessitados, doou terreno para construção da casa onde hoje está localizada a loja maçônica, à rua Voluntário Benevides. Contribuiu monetariamente para sua construção, também ajudando a saldar as dívidas que restaram da edificação.
Faleceu a 29.1.1944.
Próxima semana continua OTTO FEUERSCHUETTE

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