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Henrique Packter

OTTO FEUERSCHUETTE, segundo médico em Tubarão

12/01/2019

A FORMAÇÃO DE OTTO
Concluídos os estudos iniciais em Tubarão (1892), OTTO e o pai viajam para a Alemanha. Tinha 11 anos, lá ficando por 5 anos na casa dos avós paternos. O pai retorna ao Brasil em 24.3.1892, e à Alemanha em 1897 para trazer o filho. Deixam Hamburgo em 30.9.1897, contando OTTO 16 anos. Vai estudar em Pelotas, RS (1898 e 1899). Na época tinha interesse em cursar Farmácia e, pela sua má adaptação ao clima de Pelotas, transfere-se para POA. Recomendado por José Montaury, prefeito da capital gaúcha (1897-1924), procura o farmacêutico Dupasquié, sócio de Cristiano Fisher, um dos fundadores da Faculdade de Medicina de POA, em funcionamento desde 15.3.1899 (120 anos), a terceira mais antiga Faculdade de Medicina do país, atrás de Salvador na Bahia e RJ.
Fisher envia o jovem OTTO ao Colégio Nossa Sra. da Conceição, São Leopoldo, para cursar os 3 anos de ginásio a partir de 1900. Conclui o curso (1903) e em 1904 ingressa na Faculdade de Medicina de POA.
José Montaury de Aguiar Leitão (RJ, 1858/POA, 1939), engº e político, primeiro intendente (prefeito) de POA eleito pelo voto direto (na época, voto não era secreto e mulheres não votavam). Eleição (28.9.1896), do total de 6.073 eleitores, 2.400 compareceram às 31 seções de votação. Do total, apenas sete votos foram computados contra Montaury, candidato do Partido Republicano Rio-Grandense (PRR).
Homem de confiança de Júlio de Castilhos, chefe supremo do partido, Montaury concorreu como candidato único e reelegeu-se ainda outras seis vezes; apenas em duas eleições enfrentou opositores. Governou POA por 27 anos. Ao assumir o cargo (1897), POA tinha 64 mil habitantes; deixando suas funções, em 1924, a cidade contava 160 mil habitantes.
José Montaury implantou serviço de primeiros-socorros no primeiro mandato. POA foi a primeira cidade do Brasil a implantar o serviço. Primeira rede de esgotos de POA também foi construída em seu governo (como resultado, a mortalidade infantil caiu de 32,2% para 17,9%). 
Encomendou em 1910 projeto para a cidade ao arquiteto João Moreira Maciel. Plano Maciel (1914) buscava abrir avenidas largas, principalmente no centro da cidade, atendendo exigências da higiene e estética.
Em 1923, por alteração na Lei Orgânica de POA, reeleição é proibida. Em 1924, José Montaury deixa a prefeitura, substituído por Otávio Rocha, também do PRR. José Montaury nunca se casou e morreu pobre em 1939.
A FACULDADE DE PORTO ALEGRE NA ÉPOCA. OS CASAMENTOS DE OTTO
Em 1901, 1902 e 1903, OTTO foi sempre o melhor aluno da turma, conquistando o prêmio de Excellencia e respectiva Condecoração. A Faculdade de Medicina de POA é de 15.3.1899. Concluído o ginásio em 1903, em 1904 ingressa na Medicina de POA, curso criado fazia 6 anos. Aconselhado por familiares, transfere-se para o RJ, onde cursa o segundo ano médico (1905). Em 1909 ainda estudante casa-se com Carlota Rosa. Forma-se na Faculdade Nacional de Medicina em 1910.
O primeiro filho, RUY CEZAR, nasce em 22.2.1912 ainda no RJ. CARLOTA faleceu em 28.1.1929, deixando duas filhas, Alsa e Olsa com menos de 5 anos. Ainda em 1929, OTTO casa-se com IDA WENDHAUSEN ÁVILA, mãe de três filhas. Dez anos depois, 1939, IDA vem a falecer.
Já em 15.2.1940, OTTO casa-se com IRMA GHIZZO, convertendo-se ao catolicismo na mesma ocasião. IRMA (que lhe deu os filhos IRMOTO e OTIRMA) era filha de MARTINHO GHIZZO, amigo e aliado político.
Em 11.8.1949 (ano da formatura em Medicina do filho LEO), OTTO enviúva pela terceira vez. IRMOTO tinha 8 anos e OTIRMA, seis. OTTO casa-se pela quarta e última vez (no religioso), aos 68 anos com VERÔNICA KUHNEN. São onze os filhos: RUY CEZAR, ELSA, ELSI, ILSA, HENRIQUE OTTO (QUICO), TÚLIO (96 anos em 2014, bancário, casado com a irmã de ADHEMAR PALADINI GHISI, pai de OTTO FREDERICO FEUERSCHUETTE, brilhante oftalmologista em Tubarão e autor do primeiro transplante de córnea naquela cidade), LEO MAX (consagrado cirurgião tubaronense, pai e avô de médicos e odontólogo), IRMOTO JOSÉ FEUERSCHUETTE (médico formado na Faculdade de Medicina da UFPR em 1966, conhecido político em Tubarão e professor universitário no Curso de Medicina na UNISUL).
PAULO CARNEIRO DA LAGUNA, TAMBÉM DA FACULDADE NACIONAL DE MEDICINA
PAULO CARNEIRO, nascido em 1907, Ubá, MG, veio a Laguna exercer sua profissão, onde foi prefeito três vezes. De família pobre (15 irmãos), uma tia abastada, impressionada pela capacidade intelectual do menino, investiu em sua educação. PAULO treinava a memória frequentando o Jardim Botânico no RJ semanalmente, memorizando os nomes científicos das plantas. Retornava uma semana depois para conferir os acertos do que sua memória gravara.
Graduou-se em 1930 sendo trazido a Laguna em 1931 pelo futuro sogro e provedor do Hospital São Camilo, Luiz Martins da Fonseca. O Hospital era e ainda é da Ordem da Divina Providência. Casa-se com Ludmira, esposa e companheira por toda a vida. Tiveram três filhos, SÉRGIO neurocirurgião no RJ, RUTE casada com Rudi Bauer e LUÍS PAULO cartorário na Laguna. Fundou o Clube Blondin. Trabalhou até os 75 anos quando a artrose determinou o encerramento de sua carreira médica.
CHEGADA TRIUNFAL DE OTTO FEUERSCHUETTE NA LAGUNA
Chega a Laguna, vindo do Rio no vapor MAX a 28.1.1910. Tem recepção apoteótica noticiada pelo Jornal O ALBOR, dois dias depois. Registra que Otto é o segundo filho de Tubarão a formar-se em Medicina, mas o primeiro a regressar. Às 13h30min séquito de autoridades da Laguna e Tubarão levam o jovem médico de trem à sua cidade onde chega às 15h do dia 28.1.1910. Multidão de pessoas, foguetes e foguetões, dobrados da banda Minerva, mais Lira Tubaronense, comissão de recepção (juiz de Direito, militares), préstito evoluindo pelas ruas centrais, chuvas de pétalas de rosas, vários discursos depois, chega à casa paterna onde é saudado pelo colega, Dr. Ferreira Lima.
VINTE E UM ANO DEPOIS CHEGA PAULO CARNEIRO 
Jayme Mason, autor de Vivências e Recordações, lembra que PAULO CARNEIRO radicou-se na Laguna lá por 1931 quando contava 24 anos de idade. Vivo fosse, contaria 112 anos (2019). Tendo OTTO FEUERSCHUETTE chegado em 1910 há uma diferença de 21 anos entre o início do trabalho de ambos. Na época, Laguna estaria sem médico. É até possível, mas sabe-se que em 1930 Aurélio Rótolo pedira demissão do hospital, sendo substituído por Osvaldo Espíndola.
PAULO CARNEIRO era perfeccionista, poliglota, tinha notável biblioteca de livros técnicos e de clássicos da literatura.
A CHEGADA DE OTTO
Do jornal O ALBOR, 30.1.1910 “anteontem a bordo do Max chegou do RJ, o Dr. OTTO FREDERICO FEUERSCHUETTE que acaba de concluir o curso acadêmico”, “um fato memorável (...) pois até bem pouco tempo os catarinenses, em número limitado, se dedicavam às carreiras médicas e jurídicas, preferindo a marinha e o exército”, “OTTO é o segundo filho de Tubarão que alcança o diploma de doutor em Medicina, mas é o primeiro que regressa à terra natal”, “justas e merecidas são as homenagens, as inúmeras provas de simpatia que nesta cidade lhe foram deferidas e as imponentes festas que em sua honra (...)”, “não podia ter sido mais gentil e carinhosa a maneira porque a Laguna acolheu em seu regaço o distinto tubaronense: a recepção que teve foi uma modesta, mas sincera demonstração de (...)”, “de bordo do Max (...) seguiu para o Hotel Monte Claro na Rua Santo Antônio, próximo da Igreja Matriz”, “reunidos todos no salão principal em nome da Laguna apresentou-lhe as boas vindas (...) Antônio de Guimarães Cabral (...) respondeu o Dr. OTTO à saudação (...) manifestando sua imperecível gratidão à Laguna (...) terminou sua singela mas emocionante oração brindando a heroica cidade de Laguna (...) A 1h30 da tarde num carro especial seguiu (...) para sua terra natal (...)”.  Segue-se uma lista das 41 pessoas que receberam o novo médico. Da lista fazem parte 2 coronéis, 1 tenente coronel, 3 majores, 1 padre, 1 doutor. Nenhuma mulher na relação de nomes!
À época, mulheres viviam para o lar, não comandavam negócios nem tinham o peso social que só vão começar a adquirir em meados do século 20. O voto feminino no Brasil vai ser assegurado em 24.2.1932, quando as mulheres adquirem o direito de votar e serem votadas. E mesmo assim parcialmente. Somente mulheres casadas, aquelas com autorização dos maridos, as viúvas, e as solteiras que tivessem renda própria. Isso também valia para outras contingências, como obter carteira de motorista. Na Laguna, pioneira a aventurar-se sobre quatro rodas foi Cora Magalhães Rocha, nascida lagunense em 1907.
Casada em 1925 com Pedro Rocha (carteira n° 8), comerciante na Laguna, Cora fez os exames de direção, foi aprovada pelo perito examinador José Bergler. Recebeu a Carteira de Habilitação de nº 103, em 16.09.1937, aos 30 anos de idade, documento assinado pelo prefeito Giocondo Tasso. Até 1956, último ano dos Registros, Cora Magalhães Rocha foi a única mulher autorizada a dirigir automóvel na Laguna. Era uma mulher decidida, de opinião, além de bonita, e que pelo seu pioneirismo, certamente enfrentou mitos e preconceitos.

As estradas praticamente não existiam, poucos eram os motoristas. Cabia à prefeitura organizar e realizar os exames de direção, contratando os examinadores e expedindo a Carteira de Habilitação. Na Laguna, o primeiro a se registrar, em 25.5.1933, foi Oscar Bergler, 28 anos, Carteira nº 1, sendo seu exame de habilitação prestado em Tubarão alguns anos antes, em 1923. Foram testemunhas do registro (em 1933) Paulo Carneiro e Mário Bianchini. Assinam também o documento o secretário da prefeitura José (Zeca) Freitas e o então prefeito-provisório Giocondo Tasso.
O primeiro motorista de automóvel/caminhão na Laguna foi Willy Strak, mas sua carteira foi registrada em Brusque. Em 13.1.1915, conforme registro do Jornal O Albor, chegava a Laguna, no convés do vapor Anna, o primeiro automóvel da Laguna, para Júlio Bergler. Portanto, quando OTTO chegou, não havia automóvel nas ruas da Laguna. Como o proprietário do primeiro automóvel não dirigia, quem tomou a boleia do veículo foi Willy Strak, também motorista do primeiro caminhão pertencente a Jacinto Tasso. Outros motoristas: Dr. Paulo Carneiro, Carteira nº 3; Mário Bianchini, nº 4; Pedro Rocha, nº 8; Dr. Aurélio Rótulo, nº 13; Humberto Zanela, nº 17; Francisco Fernandes Pinho, nº 19; Mário Remor, nº 30.
OUTRA VISÃO

Já o jornal O ESTOQUE (Tubarão, 12.2.1910), em extensa matéria diz resumidamente, no jargão jornalístico próprio da época, “saberá guiar-se no caminho de seu apostolado sem outra preocupação senão disseminando o bem sem visar recompensas, espalhando o benefício sem outro intuito  senão cumprir os ditames de sua consciência pura e os impulsos de seu magnânimo coração” (...) “extraordinária festa promovida em regozijo à formatura do digno doutor” (...) “jamais este povo assistiu a recepção tão concorrida e entusiástica” (...) “mais de 2 mil pessoas acotovelavam-se nos estreitos âmbitos da gare” (...) “uma comissão composta dos senhores coronel Frederico Noronha, major Venâncio Silva e tenente José Esmeraldino foi esperar o Dr. OTTO em Laguna onde foi carinhosamente recebido pela elite lagunense. Em carro especial (...) foi conduzido a esta cidade, aqui chegando às 3h da tarde do dia 28”.

Considerando-se notícia do ALBOR de que partiu da Laguna às 13h30min e que chegou a Tubarão às 15h, a viagem levou uma hora e meia por ferrovia.

Próxima semana continua OTTO FEUERSCHUETTE

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