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Henrique Packter

OTTO F. FEUERSCHUETTE, segundo médico em Tubarão

16/03/2019

Como já se disse, Otto exerceu a profissão médica por mais de 50 anos, até aposentar-se em 1960, aos 74 anos. Nasceu em Tubarão (9.4.1881), lá falecendo em 21.8.1971, 90 anos.
Atendi OTTO em meu consultório, na época situado no HSJ, final dos anos 60. Personalidade fascinante, era extremamente objetivo e discorria sobre qualquer assunto com inacreditável destreza de intelecto e de comunicação. Perguntei-lhe da sua aposentadoria aos 74 anos:
- Muito bom! Todos os dias agora são domingos!
FRISULCA, 1963
FRISULCA, depois AGROELIANE, depois JBS, foi dirigido por curto período pelo saudoso empresário EDSON GAIDZINSKI, que passou a dizer-se, também, salsicheiro. Dizia que era melhor não saber como salsichas e política são feitas; as primeiras porque não seriam consumidas e a segunda porque a ela nos rebelaríamos.
Já que tocamos no assunto, não custa mostrar que o crescente mercado do consumo de frango tornou Frisulca (Frigorífico Sul Catarinense), fundado em 1963, o maior expoente da produção alimentícia no sul catarinense.
Em 1971, SC já ocupava o 2º lugar no ranking da produção nacional de suínos, ficando atrás apenas do RS. Mas o grande trabalho assumido desde então foi o melhoramento genético dos animais com importação e disseminação de reprodutores de raça por toda SC e até a outras regiões do País.
Em 15.6.1963, reuniram-se em assembleia geral um grupo de interessados de Criciúma, Siderópolis e Tubarão para fundar sociedade anônima com capital inicial de dez milhões cruzeiros velhos. Era o Frigorífico Sul Catarinense S.A. (Frisulca) e visava, entre outras coisas, ao estudo da viabilidade do emprego de grandes capitais no Sul de SC para exploração da industrialização de produtos alimentares derivados de suínos, bovinos e outros, como subprodutos (farinhas de carne, de osso e sangue e outros).
Para direção da Frisulca foram votados: Fidelis Back (Diretor-Presidente), Bertoldo Arns (Diretor Comercial), Inocêncio Warmling (Diretor Técnico). Membros efetivos do Conselho Fiscal: Fidelis Barato, Oberon Strazules e Ayrton Brandão e os suplentes Arlindo Junkes, Felix Albano Michels e Damásio Reis. Conselho Consultivo: Dom Anselmo Pietrulla, Sebastião Neto Campos, Dionísio Nuernberg, Leonardo Steiner e Adolfo Arns. Publicada no Diário Oficial ata da constituição, estatutos, lista dos subscritores com o número de ações subscritas, recibo do Banco INCO do depósito dos 100 % do capital subscrito e despacho da Junta Comercial do Estado.
A emancipação do município de Forquilhinha é de 1990.
A PROPÓSITO DE OTTO FEUERSCHUETTE, REVOLUÇÃO DE 30, VARGAS E O ESTADO NOVO, A BATALHA DA SERRA DA GARGANTA E A BATALHA DE ITARARÉ (QUE NÃO HOUVE)
Em 1930, após três mandatos como Prefeito de Tubarão, OTTO assumia assento na Assembleia Legislativa catarinense.
Segundo a política do café com leite (SP-MG), era a vez de um mineiro presidir a República. Washington Luís deveria indicar para sua sucessão o presidente de MG, Antônio Carlos Ribeiro de Andrada, ou o vice-presidente da República, o mineiro Fernando de Melo Viana, que já presidira MG, ou outro mineiro. Mas o paulista Washington Luís, presidente brasileiro, decidiu que o advogado Júlio Prestes do Partido Republicano Paulista (PRP), outro paulista, o sucederia.
Decisão esta, apoiada por dezessete dos vinte estados brasileiros da época (hoje, todos sabem, são 27). O Partido Republicano Mineiro (PRM) não aceitou a candidatura de Júlio, apoiando o governador de MG, Antônio Carlos Ribeiro de Andrada. O PRM buscou alianças noutros estados, e em 17.6.1929, Antônio Carlos indicou o gaúcho Getúlio Dornelles Vargas para a presidência. Assim, os três estados dissidentes, RS, MG e PB formaram a Aliança Liberal (AL), apoiando Vargas para presidente e o paraibano João Pessoa de vice.
Vargas defendia o voto secreto, reformas democráticas, independência do judiciário, anistia para os tenentes envolvidos nas diversas rebeliões ao longo dos anos 20, proteção à exportação do café e reformas sociais. Ganhou a adesão do Partido Democrático Paulista e da maior parte das oposições estaduais. A campanha mobilizou as grandes cidades.
Em SC o Partido Republicano Catarinense venceu as eleições, na contramão dos ventos revolucionários soprados do sul. Éramos oposição a Vargas.
A REVOLUÇÃO DE 30
Como já se disse, OTTO elegeu-se Superintendente Municipal de Tubarão (atualmente Prefeito), em 12.11.1922, reeleito em 1926 e em 1930. Assumiu a função a 1º.1.1923, ficando até 4.10.1930. Deputado à Assembleia Legislativa de SC (1928 a 1930), impedido pela Revolução de 30, foi substituído por Silvino Moreira. Com o movimento político de 1930, o Poder Legislativo foi dissolvido nas três esferas (Federal, Estadual e Municipal). Otto volta à Medicina, agricultura e à pecuária.
Quebra da Bolsa de Nova Iorque, outubro de 1929, inicia crise econômica em escala mundial, esmagando economias com alguma participação nos mercados internacionais, caso do Brasil e nossas exportações de café. Em outubro de 1929, três meses após a indicação de Júlio Prestes à presidência da república, ocorre queda dos preços do café. Isto faz com que Washington Luís confirme candidatura do paulista Júlio Prestes, oficializada em 12/10, pleito dos cafeicultores de SP. MG, nosso segundo maior produtor de café, deveria apoiar SP, mas marchou ao lado do RS.
Júlio Prestes, no governo de SP, destacou-se pela defesa do café. Transformou o Banespa em banco de hipotecas dos estoques de café, harmonizando os interesses dos cafeicultores com os interesses dos exportadores de Santos. Café representava 70% das exportações brasileiras; havia superprodução de café nas fazendas e grande estoque nas mãos do governo paulista.
Revolução de 1930, movimento armado liderado por MG, PB e RS, culminou com Golpe de Estado, rebelião que depôs Washington Luís em 24.10.1930, impediu a posse do presidente eleito Júlio Prestes, guindou Vargas ao posto maior da república e pôs fim à República Velha.
Iniciando 1929, Washington Luís, fluminense da cidade de Macaé, radicado em SP desde jovem, indicou o presidente de SP, Júlio Prestes, para presidir a república. Ambos filiados ao Partido Republicano Paulista. Oligarcas das lideranças paulistas romperam aliança com os mineiros, apoiando Júlio Prestes como candidato à presidência da República.
A SUCESSÃO DE WASHINGTON LUÍS
A conturbada sucessão de Washington, que presidia o país desde 1926, ocasionou a Revolução de 1930. Na República Velha (1889 - 1930), as eleições para presidente da república ocorriam em 1º/3 e a posse do presidente eleito em 15/11, de quatro em quatro anos. Não existindo partidos políticos organizados, cabia ao presidente da república a condução de sua sucessão, conciliando os interesses dos partidos políticos de cada estado.
Antônio Carlos Ribeiro de Andrada, presidente de MG, envia carta (20.6.1929) a Washington Luís, na qual indica Getúlio Vargas como candidato à presidência da república para mandato de 1930 a 1934. Escreveu Antônio Carlos: "Com o objetivo sincero de colaborar para uma solução conciliatória e de justiça, julguei acertado orientar-me na direção do nome do doutor Getúlio Vargas, por ser o de um político que se tem destacado no apoio firme e na completa solidariedade à política e à administração de V. Ex."
Solução conciliatória significava candidato nem paulista, nem mineiro, como em 1918, quando o paraibano Epitácio Pessoa assumiu a presidência da República. Devido ao lançamento da candidatura Vargas, feita por Antônio Carlos, Washington Luís iniciou o processo sucessório consultando os presidentes dos 20 estados brasileiros. Indicou, então, Júlio Prestes de Albuquerque, como seu sucessor.
O Telegrama do Nego, do presidente da Paraíba João Pessoa, é de 29.7.1929, nove dias após Antônio Carlos lançar Getúlio Vargas candidato à presidência da república. João Pessoa relata no telegrama a decisão tomada pelo Partido Republicano Paraibano: "Reunido o diretório do partido, sob minha presidência política, resolveu unanimemente não apoiar a candidatura do eminente Dr. Júlio Prestes à sucessão presidencial da República".
Na época, negociações políticas (as chamadas démarches), realizavam-se através de longas cartas. Washington Luís divulgou pela imprensa várias delas recebidas de Vargas e de AC de Andrada. 
Políticos de MG desgostosos com a indicação de Júlio Prestes lançaram, então, Getúlio como candidato de oposição a Júlio Prestes. Antônio Carlos ficaria conhecido como o Arquiteto da Revolução de 1930.
MG divide-se: políticos ligados ao vice-presidente da república Melo Viana e ao ministro da Justiça Augusto Viana do Castelo mantiveram apoio a Júlio Prestes, fazendo oposição à política carlista e ao Partido Republicano Mineiro.
Em 28.8.1929, em carta a Júlio Prestes, o escritor Monteiro Lobato, representante comercial do Brasil nos EUA, torce pela "vitória na campanha em perspectiva", e "sua política na presidência significará o que de mais precisa o Brasil: continuidade administrativa!". Curiosa previsão às avessas: Vargas estava para assumir a presidência por 15 anos! Washington Luís era por natureza conciliador (assumiu a presidência libertando todos os presos políticos, civis e militares).
A ALIANÇA LIBERAL E O TENENTISMO
Os três estados dissidentes (RS, MG, PB) e partidos políticos de oposição de diversos estados articulam frente ampla de oposição, a Aliança Liberal (agosto de 1929), oposição ao intento de Washington Luís e de dezessete estados de eleger Júlio Prestes.
A Aliança Liberal foi formalizada a 20.9.1929 em convenção dos estados e partidos oposicionistas no RJ, presidida por Antônio Carlos de Andrada, lançando seus candidatos às eleições presidenciais: Getúlio Dornelles Vargas (para presidente) e João Pessoa, presidente da Paraíba, para a vice-presidência. Washington Luís tentou dissuadi-los, desistirem dessa iniciativa. Em carta dirigida a Andrada, argumentou, sem êxito, que dezessete estados apoiavam a candidatura oficial.

Em 5/8, líderes das bancadas mineira e gaúcha na Câmara dos Deputados declararam não fazer mais parte da maioria parlamentar governista.
Em 12.10.1929, realizou-se no RJ convenção dos 17 estados governistas que indicou Júlio Prestes de Albuquerque candidato à presidência da República e Vital Soares, presidente da Bahia, do Partido Republicano Baiano, a vice-presidente.
Getúlio Vargas enviou o senador Firmino Paim Filho para dialogar com Washington Luís e Júlio Prestes. Em dezembro de 1929, formalizou-se acordo, no qual Vargas aceitaria os resultados das eleições e, se derrotada fosse a Aliança Liberal, comprometia-se a apoiar Júlio Prestes. Em troca, Washington Luís não apoiaria a oposição gaúcha a Getúlio, oposição praticamente inexistente, pois Getúlio unira o RS.
Em 2.1.1930, Getúlio Vargas lê, na Esplanada do Castelo, RJ, a Plataforma da Aliança Liberal, tratando dos principais problemas brasileiros, destaque para questões sociais: " O pouco que possuímos em matéria de legislação social não é aplicada ou só o é em parte mínima, esporadicamente, apesar dos compromissos que assumimos a respeito, como signatários do Tratado de Versalhes".
Criticou a política de valorização do café, adotada pelo governo: "A valorização do café, como se fazia, teve tríplice efeito negativo: diminuiu o consumo, fez surgir sucedâneos e intensificou a concorrência, que, se era precária antes do plano brasileiro, este a converteu em opulenta fonte de ganho. Foram, com efeito, os produtores estrangeiros e não os nossos, paradoxalmente, os beneficiários da valorização que aqui se pôs em prática".
A Aliança Liberal teve o apoio de intelectuais como José Américo de Almeida, João Neves da Fontoura, Lindolfo Collor, Virgílio Alvim e Afrânio de Melo Franco, Júlio de Mesquita Filho e Pedro Ernesto. Também das chamadas classes liberais que se opunham às classes conservadoras formadas pelas associações comerciais e fazendeiros. No RS, Osvaldo Aranha foi o grande articulador da Aliança Liberal.
Em 1º.3.1930, nas eleições para presidente da República, vitoria-se o presidente do estado de SP, Júlio Prestes, candidato governista. Não chegou a tomar posse, por golpe de estado desencadeado a 3.10.1930, 7 meses depois, e foi exilado. Vargas assumiu a chefia do Governo Provisório em 3.11.1930, data que marca o fim da República Velha.

Próxima semana continua OTTO FEUERSCHUETTE

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