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Henrique Packter

LAERSON NICOLEIT PRIMERO MÉDICO EM MORRO DA FUMAÇA (1972)

20/10/2018

Índios carijós estavam virtualmente extintos em meados do séc. 18, vítimas de maus-tratos e da escravização pelo homem branco.
Rota dos Tropeiros – Foi importante corredor onde serranos circulavam levando/trazendo produtos e desenvolvimento desde início do séc. 18 até cerca de 1930, quando a modernidade decretou o fim deste ciclo. Hoje redescoberta, a Rota dos Tropeiros nos propicia conhecimento histórico, cultura, ideias.
O livro Morro da Fumaça e Sua Divina e Humana Comédia, do Padre Claudino Biff, traz entrevistas e relatos do filho dos primeiros moradores de Morro da Fumaça, o ex-vereador Jorge Cechinel, filho de Giuseppe Cechinel e Hermínia Soligo Cechinel, primeiros a fixar moradia na localidade e considerados os fundadores de Morro da Fumaça. Giuseppe Cechinel foi proprietário de fábrica de gasosa, olaria, serraria e de fábrica de banha, comercializada na Laguna. Ajudou a construir a antiga capela de São Roque. Hospedou a primeira professora da cidade, Carolina Meirelles, vinda de Florianópolis para lecionar.
O casal José e Hermínia Soligo Cechinel, vindo da colônia Aciolli de Vasconcellos, hoje Cocal do Sul, em 29.6.1910, aqui construiu moradia em terreno adquirido de Antonio Miranda, morador da ex-Colônia Azambuja, por 1:200.000rs (um conto e duzentos mil réis). Influenciados por José Cechinel, seguiram mesmo caminho José Guglielmi e Esperança Sartor Guglielmi. Desde então, muitos imigrantes italianos vieram de localidades como Rio América, Rio Carvão e Rio Galo. Entre essas famílias estavam os Margotti, Maccari, Sartor, Pagnan, De Costa, Bortolatto, Frasson, Pellegrin, Serafim e outras. Morador de Estação Cocal, Otávio Soratto, ao completar 99 anos, lembrava bem da época em que Morro da Fumaça se tornou município.
Conta que, ao chegar à cidade, havia pouco mais de 20 casas. Conheceu o primeiro morador, grande empreendedor na época. Italianos tinham na suinocultura fonte importante de alimentação. Costumavam compartilhar o animal abatido com os vizinhos.
Otávio trabalhou com ele: “Giuseppe foi quem trouxe a primeira bicicleta para nosso município”.

PADRE CLAUDINO BIFF RECONSTITUI A HISTÓRIA MÉDICA FUMACENSE ENTREVISTANDO.
OS PRIMEIROS MÉDICOS.
No livro MORRO DA FUMAÇA E SUA DIVINA E HUMANA COMÉDIA, Claudino Biff, com grande habilidade, entrevista Santos Zaccaron sobre um tal de Dr. Lass. Seria alemão nato e notável botânico, só tratando com remédios de ervas. Teria sido muito perseguido durante a guerra, por ser alemão. Tinha residência em Criciúma e Urussanga, vindo uma vez por semana à Fumaça. Na cidade, viveu onde mora Neco Matiolla. Morreu na Fumaça e por ser protestante foi enterrado na parte não sagrada do velho cemitério. Seria ajuntado com uma mulata.
Olívio Cechinel, nascido a 11.12.1906, foi entrevistado em 20.8.1988 e declarou ter sido grande amigo do Dr. Lass, mas não se deixara impressionar pelo seu trabalho. Julgava-se mais competente que o doutor. O instrumento de trabalho de Olívio era o livro Médico do Lar. Tudo o que sabia era desse livro, onde aprendera uma infusão que eliminava todas as variedades de vermes, até amebas...
Dona JOANA VERÔNICA NICHELE BERTAN, nascida 20.8.1900. Quem era o Dr. Lass, o Doutor-das-ervas? Ela sabia na ponta da língua. Era alemão católico, casado com Helena e tinham dois filhos, Danúncia e Terso. Receitava remédios de ervas e de farmácia. Padre Camilo Biff dizia ter outra versão sobre a vida do médico: separara-se da esposa, juntara-se com outra, uma senhora morena. Ao morrer, por viver maritalmente com outra, não lhe foi dada a sepultura na parte sagrada do cemitério da Igreja. E dizia-se que era luterano ...
Já na entrevista concedida por Olívio Cechinel, este confessou que curar doenças teria sido seu carisma. Disse que tudo começara com uma crise de hepatite que sua mulher tivera. Procurado em Criciúma, o Dr. José Balsini a teria desenganado. Quando jovem, Olívio e Mansueto Maccari foram fazer o serviço militar (servir o exército) em Florianópolis. Na revolução de 30, engajam-se ambos nas tropas gaúchas e invadem São Paulo. O destino era Itararé para lutar a batalha que não houve. Mansueto e ele não deram um tiro sequer. Vai daí que Olívio conhece uma velha bugra que o inicia nos segredos dos tratamentos das doenças. Um remédio era extraído de uma planta que, em si, seria venenosa, mas que trabalhada por ela seria a cura para muitas doenças. Deu o remédio durante 29 dias para a mulher prostrada na cama e salvou-a. A droga milagrosa tem seu segredo guardado a sete chaves. Olívio já declarou que o filho Wanderlei seria o herdeiro de seus segredos medicinais. Afiançava ter curado muita gente com a tal xaropada. Gente de todo o Brasil corria para a Fumaça atrás da tisana mágica.   
PADRE CAMILO BIFF ENTREVISTA JORGE CECHINEL, em 7.7.1988, aos 84 anos. JORGE afirmava ter dançado muitos bailes ao som da sanfona de Pedro Raimundo, na Fumaça, Rua do Fogo, no armazém da estrada de ferro. Ele teria vindo com muitos operários, do Imaruí.
- Era bom no teclado já naquela época; foi o filho mais ilustre do Imaruí.
Falando do Hospital São Roque, disse que lhe apareceu o Dr. Laerson Nicoleit, acompanhado por Jorge Silva, que teria ido à sua casa pedir todo o dinheiro necessário para terminar a obra. Acreditando na seriedade do médico, Jorge financiou tudo e o hospital saiu. Aos poucos Laerson pagou a dívida:
- Ele é um homem muito sério, garantiu Jorge.
Padre Camilo Biff:
- Ele me disse que deixaria o hospital como legado seu à Paróquia de Morro da Fumaça.  

PADRE CAMILO BIFF LEMBRA
DE PARTEIRA FAMOSA
Dona Perpétua era famosa, era negra e era mãe do Bigode. Falava italiano melhor que os italianos. Fez milhares de partos, dezenas de batizados in extremis e salvou centenas de parturientes. Sendo a mãe pobre, ainda levava a galinha. Você conhece a velha história: quando pobre toma canja de galinha, um dos dois tá doente. Em 50 anos de diaconia, fez-se comadre de incontáveis crianças. Trabalhava gratuitamente, ou pagava para trabalhar.

ENTREVISTA COM
ANTONIO MAURÍCIO GOMES
Era pernambucano nascido em 11.6.1894. Soldado do exército de 1912 a 1921, quando deu baixa na cidade de Valência, prestou exames para prático de farmácia. Convidado pra vir a Orleans onde havia dois farmacêuticos, Santos Alberton e José Costa, trabalhou com esse último. Depois, vai a Gravatal, onde funda sua primeira farmácia e também a primeira farmácia de Gravatal. Muda para Braço do Norte, transferindo-se dois anos depois para Rua do Fogo. Recebeu as tinturas e químicas de Antônio Medeiros, pai de Aggeu Medeiros em 1926. Aggeu foi famoso farmacêutico em Tubarão; sua clínica rivalizava em tamanho com as melhores clínicas dos melhores esculápios da região. Rua do Fogo era maior que a Fumaça, daí a escolha. Da Rua do Fogo vai para a Vila de Jaguaruna, título outorgado por Pedro II. Lá permanece por oito anos. É de lá que vem para a Fumaça convidado por Luiz Guglielmi. Seus trens vieram em 6 carros de bois.
Instalou sua primeira farmácia onde hoje é a Prefeitura, numa casa pertencente à família Cechinel. Chegou a 16.8.1934, dia de São Roque. Depois construiu casa e farmácia, a Pharmacia Mauricina. Recebia chamados de toda parte: Treze de Maio, Içara, Urussanga Velha, Jaguaruna, Urussanga Alta, Cocal. Sempre atendia a chamados, cavalgando seu cavalo.
Padre Claudino quer saber o que Antonio atende; quais chamados são mais frequentes. Anemia era grande, diz. A receita mais clássica era a anquilostomina (de Monteiro Lobato, no Jeca Tatu). Muita gripe, muita hepatite, muita mordida de cobra jararaca.
E a quais médicos Antonio conhecia na região? Conhecia Paulo Carneiro na Laguna, Luiz Campelli em Urussanga, o carioca Asdrubal em Tubarão, além do famoso Otto Feuerschutte. Era amigo particular de José Balsini.
- Quando eu não dava conta da gravidade de um caso mandava ao Dr. José Balsini, entregava.

TRANQUILO SARTOR AOS 91 ANOS
DÁ ENTREVISTA A PADRE BIFF
Casara com Amália, mulher doente. Fernando Fávero, chefe da Cooperativa, leu num jornal de Florianópolis a propaganda do médico Aurélio Rotollo. Tranquilo ficou em casa cuidando das crianças e a esposa e amigas foram a Florianópolis. Parece que Aurélio Rotollo era casado com uma dos Pinho e falava bem o italiano. Ela ficou 5 meses internada e curou-se.
- A gente ia de trem à Laguna. Pousava lá, no outro dia, de ônibus em 6 horas de viagem chegava a Florianópolis. O Dr. Aurélio dava injeção no próprio pulmão de minha mulher.
Tranquilo enfrentou doloroso problema de saúde.
- Me deu um panarício no dedo. Se você não mata, ele corta o osso da ponta do dedo. Era uma dor horrível.
- Vá ao Antonio Ferraro, ele é entendido.
Médico não havia. Ferraro morava em Urussanga. Quando cheguei, ele se confessou incapaz de resolver meu drama. O jeito era o panarício roer o osso da ponta do dedo e cair. Voltei para Fumaça. Apareceu um homem. Ele me disse:
- Aqui tem aquele russo que vai te curar. Ele cura tudo.
Era um velho russo, já não caminhava muito. Encilhei o cavalo e fui à casa do russo. Ele me conhecia. Fui falando:
- Tenho uma doença perigosa que me dói muito.
Ele era russo, mas falava bem o italiano. Me fez sentar numa cadeira e tomou uma velha navalha numa das mãos e na outra um vidrinho com pó, como se fosse pó de fumo, parecia rapé. Sentado, coloquei a mão sobre seu joelho. Limpou bem e colocou o pó. O panarício meteu cabeça 3 a 4 vezes e ele fez zaz: navalha nele. No fim disse:
- Vá embora que já está bom.
- Não senti mais dor e me fui, curado pelo russo. Se não fosse por ele a ponta de meu dedo teria ficado pitoca. (Provavelmente tratava-se de uma míiase, doença parasitária provocada pela larva da mosca Dermatobia hominis. A larva da mosca penetra na pele do hospedeiro, que pode ser o homem ou outros animais, onde vai se desenvolver).
Próxima semana continua LAERSON NICOLEIT

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