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Henrique Packter

LAERSON NICOLEIT, pioneiro em MORRO DA FUMAÇA

22/12/2018

Em 1972, ano da chegada de NICOLEIT na Fumaça houve muita coisa a lamentar e também para regozijar-se. Em Janeiro, João Ricardo inicia os ensaios da segunda formação dos Secos & Molhados, com Ney Matogrosso, Marcelo Frias e Gerson Conrad. A banda Led Zeppelin é impedida de desembarcar em Singapura. Cabelos compridos foi o motivo alegado. Em 16 de Outubro, é anunciado o fim do grupo Creedence Clearwater Revival.
Também em 1972 morre Harry Truman, o presidente norte-americano que ordenou o lançamento das bombas atômicas sobre Nagasaki e Hiroshima, dando fim à Segunda Guerra Mundial e determinando a morte de milhares de pessoas, aí incluídos velhos, doentes e crianças. Perguntado sobre a causa do aumento do número de divórcios nos EUA, Truman teria respondido (a sério) que a causa, sem dúvida, era o elevado número de casamentos.
John Edgar Hoover morre após dirigir com mão de ferro o FBI por 48 anos. Diz-se que as prisões que mandava efetuar em geral não primavam por gestos gentis. Parece que vem daí o aviso que o comediante americano Grouxo Marx afixou à porta de seu escritório: Entre Sem Bater.

LAERSON NICOLEIT PROFESSOR
UNIVERSITÁRIO DE DIREITO NA UNISSUL
As aulas tinham sempre um sentido prático. Sua pergunta célebre: — alguém tem alguma dúvida sobre o assunto? Não havendo manifestação, completava: ou sobre qualquer assunto. Isto, fez escola.  Tanto que outros professores menos votados também passaram a usá-la. Mas o que era mero impressionismo nuns, era desafio verdadeiro em Nicoleit. Ele próprio se desafiava, corria riscos; sempre em expansão, nunca parava; não conhecendo limites, não conhecendo seu alcance, sabia que podia mais. Ambicionava sempre mais. Sá de Miranda, poeta português do séc. 16, conceitua tal estado de espírito:
Comigo me desavim... /não posso viver comigo, /nem posso fugir de mim.

APRESENTAÇÕES
LAERSO fazia o tipo sisudo. Quase não ria, ria pouco. Quando dialogava chegava muito próximo do outro, olhos muito abertos, aumentados pelos óculos de lentes para correção de hipermetropia alta. Escandia as sílabas. Falava e queria saber tudo, em detalhes.
Certa ocasião encerrou penosa e interminável reunião da Regional Médica da Zona Carbonífera em Criciúma na década de 70, dizendo: "Se o problema tem solução, não se preocupe com o problema. Se o problema não tem solução, porquê se preocupar com o problema?"
Não tínhamos muitos contatos mesmo porque andávamos em círculos de especialidades diferentes. Mas, uma ocasião convidou-me para visitar o Hospital São Roque, coisa que fiz, acompanhado de minha mulher. Morava numa residência dos fundos do hospital acompanhado pela mãe. Lembro de uma portentosa coleção de long-plays de muito boa qualidade que nos fez ouvir alguns, enquanto conversávamos. O aparelho de som, quase raridade para a época, tinha sonoridade inacreditável.
A conversa girava sobre tudo e sobre todos. Quase ninguém escapou. Principalmente falou ele. Sua intenção era levar-me a operar pacientes da região em seu hospital, o que na época era difícil. Meu irmão e eu já atendíamos além de Criciúma em Araranguá e Orleans. Já operávamos nestas três cidades. Meu irmão Boris atendia em Orleans, no Hospital Santa Otília onde fizera amizade com Emir Bortoluzzi de Souza, o médico da cidade. Uma vez por semana lá ia Boris prestar atendimento à população da região. Ao meio-dia interrompia as consultas para almoçar. Muitas vezes era convidado de Emir, ocasiões em que se banqueteava pois dona Wanda era cozinheira afamada.
Mas, nem tudo eram flores. Às vezes almoçava próximo ao Hospital numa lanchonete por ele batizada de Morte Lenta.
Boris entrava e já ia perguntando protocolarmente:
- Que tem hoje?  
A resposta padrão da funcionária era:
-Isso daí, ó.
Apontava com o queixo ligeiramente elevado, para o prato de algum outro incauto frequentador. Também rapidamente virava o rosto com ar de desagrado. Por via das dúvidas Boris pedia Bauru com ovos, parecia mais seguro. Muitas vezes, dizia, era impossível identificar o que eram certas coisas, dadas como comestíveis e jogadas sobre a mesa.
Nossa conversa cheia de amenidades baseava-se na Medicina que praticávamos nos bons idos de 70, lembrando-se que Nicoleit chegara à Fumaça em 1972 e eu à época já contava com doze anos de atividades médicas em Criciúma.

CLIENTELA
O linguajar pitoresco de certos pacientes era nosso encanto. Pessoas do povo, boas, trabalhadoras, honestas, sem malícia. Nicoleit contava de uma certa Dona Ingrácia. Operada de perineoplastia Nicoleit iniciava a visita aos internados perguntando-lhe:
- Dona Ingrácia como está urinando?
- Doutor, estou mijando que nem uma égua!
Nicoleit perguntara a esta mesma senhora quando viera consultar:
- Dona Ingrácia, que a trouxe para consulta?
- Doutor, quem me trouxe foi meu marido. Viemos na Rural dele. Ele vai aproveitar e comprar umas vacinas para as vacas e coalho. Minha filha também veio e vai comprar umas coisinhas na Cooperativa.
NICOLEIT não era pessoa profundamente religiosa. Mas, como todos nós, tinha seus causos em que a religião despontava como instância decisiva.
Conhecia os pacientes pelo nome. Sabia de onde vinham e como iam as coisas por lá. Os presentes eram muitos: galinha caipira, batata-doce, laranjas, vergamotas, compotas caseiras, aipim.

EL QUE NO LLORA NO MAMA
Um gaúcho se instalara nos domínios fumacenses e logo se faz amigo.
-Licença doutor, Buenas! Desta vez tenho uma queixa e como sei que o doutor é de faca na bota, resolvi assuntá direto prá não deixa mal-entendido.
Na semana anterior Nicoleit atendera a netinha de cinco anos da gauchesca figura. A menina tinha febre elevada por um quadro infeccioso pulmonar e Nicoleit prescrevera um antibiótico além de um antitérmico e medidas gerais.
O avô indignava-se, elevando a voz:
- Fizemos tudo que nos mandaram fazer. Demo banho quebrando a friúra da água, suco de laranja à vontade, mas o tal remédio que o doutor receitô era coisa mais impossível de dar. Pois isso é remédio que se dê para uma inocentezinha? A primeira dose foi boca abaixo com muita choradeira. Na segunda a coitadinha engasgou-se toda com aquele pozinho branco, ficou roxinha e lá nela apareceu mancha vermelha nos olhos.  A coisa só aliviô quando botamo goela abaixo o líquido que vinha junto com a caixinha.
Evidentemente, faltara a explicação que o pozinho deveria ter sido misturado ao líquido antes de ser administrado. O vivente antes de retirar-se ainda resmungou:
- Bah! Vivendo e aprendendo! Buenas!

COMO UMA MÉDIUM ENTRA NA HISTÓRIA
Nicoleit tinha um certo envolvimento com a Medicina tubaronense. Afinal, estudara Direito em Tubarão e até lecionara neste Curso da Unisul. Contou-me de clientezinha sua, nascida no Hospital São Roque, com anemia muito grave. Sobreviveu à custa de transfusões de sangue realizadas a cada 20 dias. O único sangue compatível de grupo e subgrupo sanguíneo, era muito raro. Por seis anos a menina buscava em Tubarão o sangue de que precisava para viver, cidade onde residia o único doador encontrado. Que, um belo dia sumiu sem deixar rastros. Por rádios e jornais procurou-se outro doador compatível. Quem tivesse o sangue daquele tipo que procurasse em Tubarão e na Fumaça os doutores que cuidavam da pequena paciente. Debalde.
Até que um dia, madrugada alta, um homem pobremente vestido, chinelas nos pés, bateu à porta do Hospital São Roque.
- Tenho o tal sangue para salvar a criança.
- Alguém já examinou o seu sangue?
-Não.
Um desconfiado e sonolento Nicoleit perguntou:
-E como sabe que tem o tal sangue?
-Minha mulher me acordou inda agorinha e pediu que viesse falar com o doutor.
-Como ela sabia?
-Doutor, ela é médium. O espírito de um médico baixou nela e deu a ordem. Por isso estou aqui.
Era exatamente o sangue procurado. 

FELIZ NATAL, FELIZ 2019 GENTE!
Aproxima-se o Natal e com ele o fim deste ano de 2018 e o início de 2019. Jornalistas preparam suas retrospectivas, encerramos as contas velhas passando a pensar nas novas contas.
2018 podia ter sido pior - aliás, tudo nesta vida e na outra podia ser pior. Sempre impliquei com o lugar-comum que obriga a humanidade a maldizer o ano que passou e a bajular o ano que chega, desejando-o próspero. A verdade é que todos os anos que já maldizemos, íntima ou publicamente, todos os anos que ficamos aflitos em vê-los para trás, todos esses anos - repito - foram prósperos no início e acabaram malditos, como os demais. Quem inventou essa prosperidade? Certo que, de uma forma ou outra, há anos piores do que os outros, também piores. E é possível até que existam anos bons, desses que deixam saudade na gente. Ainda não tenho certeza, mas acho que esse ano de 2018 não foi tão ruim assim, apesar das desgraças acontecidas e das maravilhas que inutilmente esperávamos. O importante é a vida em si, a capacidade de sentir o sol sobre a pele, viver a esperança de cada manhã e a resignação de cada tarde. Não costumo fazer planos para o ano que chega nem para a vida em geral. O que acontecer será lucro, desde que aconteça.
Tivemos muito assunto na mídia, numa velocidade que não deixou tempo à monotonia: a peteca sempre em jogo, para lá e para cá. E é nisso que reside a faina humana: não deixar a dita cuja cair. No plano pessoal, por mais desventuras que tenhamos tido, por mais perdas e danos que entraram no rol das nossas desditas, sempre sobrou o saldo final e positivo da própria vida, a vida que um dia nos será tirada e que, enquanto vida, é o valor maior e, na verdade, único.
Mas, a vida não é uma coisa arrumada como as antigas farmácias homeopáticas, uma porção de vidrinhos rotulados para cada caso específico, alium sativum para os resfriados, extrato de beladona para os males hepáticos, alumen para prisão de ventre, apis melifica para inchaço, - tudo tem remédio e tudo vale a pena, mesmo que, ao contrário do poeta, a alma seja pequena. O mundo não tem mesmo remédio, é o que sabemos, choramos e lamentamos. Vivemos dentro dele e, por isso, o melhor que se faz é suportá-lo, criticá-lo e circunstancialmente gozá-lo. Não devemos maldizer o ano que passou nem esperar maravilhas do ano que vai chegar. O primeiro nos manteve vivos, embora tenha tornado o mundo pior. E o novo será a mesma coisa. Como as crianças que antigamente escreviam cartas ao Papai Noel pedindo isso ou aquilo, cada um terá, encabuladamente, sua própria lista de esperanças ou devaneios.
Uma lista gradualmente mais modesta e mais possível. Tive um amigo que sofria de espantoso furor donjuanesco, a cada ano abria um caderninho com o nome e as características das mulheres que desejava e esperava conquistar, lista que foi minguando com o tempo até se resumir numa enfermeira gorda e velhusca que o atendia na Casa de Repouso onde se abrigara.
Um autor escandinavo, não lembro o nome, é algo complicado, com seis consoantes, um trema, dois acentos circunflexos e uma única vogal-, conta a história do sujeito que ia ser enforcado. Ao sentir que o carrasco botava a corda em seu pescoço, teve um pensamento consolador: "Amanhã, não precisarei escovar os dentes".
Espero que todos nós, ao longo de 2019, tenhamos de escovar os dentes todos os dias com nossas próprias mãos, dirigidas por mente funcional. BOAS FESTAS, FELIZ ANO NOVO DE 2019!

Na próxima semana conclui LAERSON NICOLEIT

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