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Henrique Packter

ELIO MIGUEL MATTIELLO, pioneiro em cirurgia da coluna

30/06/2018

UM CENSO DE 1909
Em 1909, Criciúma tinha seu primeiro vigário, o Padre João Canônico. No início do século, depois da revolução federalista e da repressão em Desterro, era uma boa dar abrasileirada nos nomes. O vigário decidiu realizar estatística das almas do curato de São José, em Criciúma. Verdadeiro censo demográfico, mas apenas dos italianos. Eram 39 núcleos familiares, todos católicos, dedicados à agricultura, devidamente cadastrados. A história da Ortopedia e Traumatologia em Criciúma não pode ser contada sem falar-se de Maria Antéa Mangilli, a Mangilli, casada com Antônio Mangilli, constituintes de um desses núcleos. Nascida em Punhano, província de Bergamo, Itália, 1885, Maria Antéa chegou ao Brasil aos 5 anos de idade em 1890, estabelecendo-se na Primeira Linha, Sangão.
Já estou vendo muita gente estranhar: um médico pôr-se a falar e fazer apologia de curandeiros? Não, não tem nada a ver. A Mangilli é uma pioneira, pessoa aplicada, superando as limitações do meio pela observação e cuidado, zelo, aplicação, empenho, esforço, sacrifício, atenção. Tinha habilidade inata para reduzir fraturas, tratar entorses e luxações. Seu prestígio era imenso, atraindo clientes de lugares distantes; ombreava com os grandes nomes médicos da época. Figura lendária, tratava os pacientes com extrema bondade. Mãe de 12 filhos, veio a falecer em 22.7.1955.
VILEGIATURA (MAS NEM TANTO ASSIM), EM POA
Elio passa a frequentar o Hospital São Lucas da PUC. Apresentado ao Chefe do Serviço de Ortopedia, Dr. Monik Fridman, obtém dele permissão para auxiliar Erasmo Zardo nas cirurgias. Fridman tem graduação em Medicina pela Faculdade de Medicina de POA (1956), especialização em Ortopedia e Traumatologia pela Santa Casa de Misericórdia de SP (1963), doutorado em Medicina pela Faculdade de Medicina de POA (1956) e aperfeiçoamento em Traumatologia pela Clínica Universitária de Homburg Saar (1980). Professor titular da PUC-RS.
Todas as quintas-feiras, às 11h30min, Zardo chamava-o à sua sala para mostrar os casos mais importantes da semana. Pedia a opinião de Elio, da qual às vezes discordava, mostrando a conduta correta (no seu entendimento).
A propósito desses tête-à-tête, OLAVO DE ASSIS SARTORI, o grande gineco-obstetra, mineiro duplamente - por nascimento nas Alterosas e pela economia da região que escolheu para desenvolver pioneiras atividades médicas -, gostava de contar causos ocorridos em plagas mineiras.
De Benedito Valadares, jornalista e político mineiro, nomeado interventor nas Alterosas por Vargas (15.12.1933 a 4.11.1945), conhecia vários. Corria à boca pequena que, diante de constantes acidentes envolvendo sistematicamente o último vagão das composições ferroviárias, Valadares teria ordenado que, na malha ferroviária mineira, o último carro fosse eliminado.
Muita gente do interior corria à capital, Belo Horizonte, atrás de emprego público. Aarão Reis, urbanista paraense, é o autor do projeto da segunda cidade brasileira planejada (a primeira foi Teresina). Cidade de Minas foi inaugurada em 1897. Em 1906, a cidade teve seu nome alterado para Belo Horizonte.
Pois Daphnis Milhomens Cabrita, bem recomendado político do interior e que pleiteava emprego nos Correios como carteiro, espera o dia inteiro na antessala do governador para exibir documentos e cartas de recomendação.
Boca da noite, todo mundo atendido, sala quase às escuras, vem o contínuo sussurrar:
- Aproveita que o governador está sozinho; entra lá e mostra o teu currículo.
O correligionário fez o consagrado gesto com o antebraço fletido em ângulo reto com o braço, punho fechado, e se mandou.
- Aqui, ó!
CONTINUA A FORMAÇÃO DE ELIO
Desta forma, passaram-se seis meses, pela manhã com Schumacher ou com Ernani e à tarde com Erasmo. Permanecia até 19h ou 20h quando apanhava o ônibus da Nordeste, destino Brasília, saindo da Rodoviária de POA às 21h30min, chegando a Criciúma por volta das 2h30min. A mulher de Elio ia apanhá-lo na BR, Posto Rosso. A única escala em SC da empresa era na cidade de Camboriú.
Final de dezembro de 1998, Monik Fridman, inesperadamente, quer a presença e Elio em sua sala. Pede para sentar-se:
- Doutor, tenho observado seu trabalho por seis meses. Tem mantido comportamento exemplar, nunca faltando a uma quinta-feira sequer. Juntamente com o Dr. Erasmo, decidimos proporcionar-lhe uma pós-graduação em Coluna. Contudo, essa pós deve ser previamente autorizada pela Pró-reitoria de Extensão Universitária. Por ora, o senhor continua frequentando o serviço.
Passam-se dois meses e, em meados de março, a assistente de Monik Fridman informa que Elio deveria dirigir-se à Secretaria da Faculdade. Lá dão-lhe conta de que a solicitação dos Drs. Erasmo e Fridman fora aceita.
- Há apenas um pequeno detalhe: o senhor deve pagar um salário mínimo mensal durante doze meses.
Elio pagou-os de uma só vez: vá que se arrependessem!
A Faculdade computou todas as horas trabalhadas com Schumacher e Ernani. As aulas, prolongadas das 18h às 20h30min, foram transferidas para quinta-feira, a fim de que Elio pudesse das mesmas participar. Exigências do Dr. Erasmo. Com os R3, assistiu todas as aulas teóricas das quintas-feiras nos meses de agosto, setembro, outubro, novembro, até 15.12.1999, quase vinte anos atrás, preparando-se para o exame da SBOT.

Essas facilidades podem ter duas explicações:
1. Reconhecimento ao esforço desenvolvido por profissional cujo sonho era destacar-se numa subespecialidade dentro da Ortopedia e Traumatologia e exercida por poucos. Basta dizer que em todo sul de SC, população de 500 mil habitantes, há dois ortopedistas oferecendo à nossa população esta atividade.
2. Quantas pessoas teriam a força de vontade para submeter-se a sacrifício pessoal desta grandeza?
COROAMENTO DE SACRIFÍCIO INCOMUM
Finalmente, final de dezembro de 1999, em sessão solene, ELIO MIGUEL MATTIELLO recebe o diploma de PÓS-GRADUADO EM CLÍNICA E CIRURGIA DE COLUNA. A cerimônia contou com a presença de todos os Pós-Graduados da PUC, de todas as especialidades sendo presidida pelo Reitor da PUC. Foi padrinho de Elio, na formatura, o Professor Dr. MONIK FRIDMAN, do qual Elio sempre guardará o melhor conceito.
SUBESPECIALIDADES EM ORTOPEDIA E TRAUMATOLOGIA
Somos 200 milhões de brasileiros. Apenas 40 milhões de nós temos planos de saúde. Isto quer dizer que 160 milhões de patrícios não têm convênios, não estão satisfeitos com o SUS, e não têm dinheiro para buscar a medicina particular. Nas regiões mais populosas do país têm proliferado as chamadas clínicas populares que atendem a preços módicos, pouco acima da retribuição com que os planos contemplam a consulta médica; 1 consulta = 55 contos.
O The New England Journal of Medicine, a mais antiga e uma das mais prestigiadas publicações científicas da área da saúde, divulgou artigo de James Macinko e Matthew J. Harris sobre a Estratégia de Saúde da Família (ESF) brasileira.
Apesar de escancarar as principais falhas e contradições do sistema, o texto pontua avanços do Sistema Único de Saúde (SUS), fala sobre o Programa Mais Médicos Para o Brasil, destaca o uso extensivo e eficaz dos Agentes Comunitários de Saúde (ACS) e conclui: o mundo pode aprender algumas lições da experiência brasileira.
Os elogios ao SUS e ao Mais Médicos, além de um horizonte de esperança para uma saúde pública de qualidade, foram suficientes para desencadear uma furiosa reação de grande parte da categoria médica brasileira contra a revista científica inglesa nas redes sociais. O artigo seria mentiroso e autores e o jornal foram acusados de terem sido comprados pelo governo brasileiro.
Forte polarização e clima de intolerância têm tomado conta do cenário político. Nem mesmo ações mais bem-sucedidas do governo merecem qualquer reconhecimento aos olhos de seus opositores. Isso se evidencia, com muita força, nas disputas políticas enfrentadas dentro da área da saúde nos últimos anos.
O SUS é fruto do movimento pela reforma sanitária e da luta pelos direitos populares até então negligenciados. Mas há contradições flagrantes: apesar de haver dois setores bem distintos (público x privado), o SUS se denomina como um sistema único de saúde. É desse ponto que se originam muitas das discordâncias desse processo e é exatamente de onde emerge todo esse incômodo da categoria médica. 
SUBESPECIALIZAÇÃO EM ORTOPEDIA
Existe a tendência em quase todas as especialidades médicas procurarem se subespecializar. Essa tendência, se por um lado facilita a área de atuação do profissional e seu aprimoramento cientifico, por outro lado reduz seu mercado de trabalho. No caso da ortopedia não se pode dizer que existam subespecialidades melhores ou piores. Talvez quadril tenha um mercado de trabalho maior pelo número mais expressivo de casos, principalmente pelo envelhecimento da população, joelho e coluna (pelo aumento dos casos de obesidade com suas consequências ortopédicas).
E NÃO TE ESPICHA QUE O COBERTOR É CURTO!
O discurso de Elio é repleto de expressões populares gauchescas. Em Ortopedia e Traumatologia, o preço das próteses utilizadas em cirurgias é muito alto, geralmente a maioria das cirurgias da especialidade é quase que exclusivamente oriunda dos convênios. Pelo SUS são difíceis e os particulares são raras. A inserção do recém-formado neste mercado, apesar dos custos para iniciar a vida como ortopedista, continua sendo bom; mas como todo mercado bom, ele é competitivo. Construir uma carreira não é fácil em nenhuma profissão. Dedicação e acima de tudo planejamento, além de muita paciência para amadurecer na profissão, são os requisitos.
UMA CLÍNICA ORTOPÉDICA
Pode ser considerada completa se contemplar segmentos tão diversos quanto os que constam logo mais abaixo. Você já teve noção do sacrifício que representa especializar-se, apreciando a saga de ELIO MIGUEL MATTIELLO. Um sacrifício que envolve a família, participando e auxiliando. Há que considerar custos com viagens, estadias e locomoção dentro da cidade estranha, e que em termos de trabalho e ganho, um dia por semana passa em branco. Atingida a meta da especialização, o profissional buscará clientes. Que subespecialidades privilegia a O&T? São quinze:
Joelho, Quadril, Cirurgia da Mão, Coluna, Tornozelo e Pé, Ortopedia Pediátrica, Oncologia Ortopédica, Trauma Ortopédico, Reumatologia, Geriatra, Fisiatra, Infectologista, Ambulatório Paralisia, Plástica, Tumor Ósseo. Nos grandes centros, todas essas subespecialidades estão disponíveis, entre nós, algumas.
DE VOLTA A PENATES
O HSJ foi cadastrado para realizar procedimentos de MÉDIA E ALTA COMPLEXIDADE em 04.09.1995. Porém, para poder ser credenciado necessitava contar no seu Corpo Clínico profissionais médicos que possuíssem graduação compatível.
O Ministério da Saúde enviou ao HSJ, em meados de março de 2001, comissão para verificar as condições oferecidas pelo HSJ para execução de Cirurgias de Alta e Média Complexidade. Também seriam examinados documentos que comprovariam habilitação e gabarito para tanto.
Chamado pela Direção do HSJ, Elio apresentou à Comissão, vinda de Florianópolis, credenciais e documentos dos quais levaram fotocópias. Poucos dias depois, vinha o CREDENCIAMENTO: o HSJ estava apto para efetuar cirurgias de coluna de alta complexidade.
ELIO MIGUEL MATTIELLO orgulha-se em ser o primeiro médico credenciado para CIRURGIAS DE ALTA COMPLEXIDADE no HSJ, sendo este o primeiro passo para a modernização de todos os serviços do hospital.
Hoje, temos várias especialidades que praticam Alta Complexidade: CIRURGIAS ONCOLÓGICAS, ORTOPEDIA EM DIVERSAS ÁREAS (QUADRIL, JOELHO, OMBRO, MÃO, CIRURGIA PEDIÁTRICA ORTOPÉDICA), ANESTESIOLOGIA, CIRURGIA CARDIOVASCULAR, NEUROCIRUGIA.
HSJ, HOSPITAL ESCOLA
O HSJ tornou-se HOSPITAL ESCOLA, com residência em CLÍNICA MÉDICA, CIRURGIA GERAL, INFECTOLOGIA, UTI (MÉDICO INTENSIVISTA), CIRURGIA CARDIOVASCULAR, HEMODIÁLISE, ANESTESIOLOGIA.
Em 25.11.2017, os formandos da 6ª Turma da Faculdade de Ciências Médicas do Paraná reuniram-se na comemoração dos 50 anos de Formatura, em Curitiba, PR. Entre eles, um justamente orgulhoso ELIO MIGUEL MATTIELLO.
Próxima semana conclui ELIO MIGUEL MATTIELLO

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