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Henrique Packter

BORIS PAKTER, primeiro broncoesofafologista

15/09/2018

Foi notícia recente de jornal que montadora de automóveis no Brasil, ligada à família de conhecidos políticos, recolherá mais de 20 mil veículos de modelo de sua fabricação devido à probleminha surgido no dito cujo carro. A isto chamamos Recall ou call-back, revogar, chamar de volta.
Parece que o espelho do carona, ou seja do quebra-sol da madame, não é de boa qualidade, deformando a imagem refletida. Nada Importante. Isto não acontece porque a empresa é boazinha, mas porque o momento exige ou porque foi pressionada pelos consumidores – ou seja, a gente mesmo.
Antigamente, quando isso ocorria, o infeliz comprador que se queixasse ao bispo, o qual tinha mais o que fazer.
Essa associação entre família de políticos e conceito do recall poderia ser mais abrangente e aplicar-se também à política partidária. Sentindo o eleitor que ajudara a eleger político responsável por pinotes não autorizados ou se andasse ele esquecido dos compromissos assumidos, o eleitor deveria poder anular o próprio voto. Realizado em número suficiente, o político devolveria o mandato.

ELEIÇÕES, EM SANTA MARIA
Nosso pai não era de muita prosa, mas, às vezes, surpreendentemente, dependendo do assunto ser de seu agrado, deitava a falar. Após o modesto jantar na casa/loja de comércio que habitávamos na Acampamento com Ipiranga em Santa Maria, papai dispôs-se a falar sobre eleições. Boris e eu escutávamos, mãe Geny e Dorinha lavavam os pratos e talheres quase sem fazer ruídos, escutando lá da cozinha. Era o início dos anos 50.
Antes de 1930, explicava nosso pai, o processo de votação utilizado nos pleitos eleitorais para escolha dos representantes aos legislativos estaduais e federal configurava cenário de inacreditável corrupção. A mesa eleitoral era instalada quase sempre em clubes recreativos, postando-se os chefes políticos ao seu lado. Atas eleitorais eram invariavelmente adulteradas ou forjadas.
Cada chefe político recebia regular quantidade de cédula. O voto era sufragado em aberto, ou seja, o eleitor adentrava o local onde se localizava a mesa eleitoral, dirigia-se ao seu específico chefe político (por camaradagem, pelo compadrio ou porque utilizava terras dos coronéis da Guarda Nacional). Destes recebia a cédula para então dirigir-se à mesa, apresentando ao presidente documento ou título. Recebia uma sobrecarta vazia, onde depositava a cédula eleitoral, colocando-a imediatamente dentro da urna. Antes de sair retornava à mesa eleitoral, assinando a folha destinada aos votantes.

ONDE A ESCOLA PRIMÁRIA ENTRA NA HISTÓRIA
A incontestável autoridade dos chefes políticos fazia com que seus eleitores - na esmagadora maioria analfabetos, incapazes de garatujar o nome - fossem substituídos pelos alunos do primário, isto, no dia seguinte ao da eleição. Nomeadas por indicação política, as professoras submetiam-se a essa prática.
Aconteceu que o escrivão eleitoral, estando também em dívida com o chefe político pelo cargo, levou a folha de votantes até a escola para que os alunos a assinassem. Assinariam pelos votantes que não sabiam assinar e eleitores certos do chefe situacionista. Apurados os votos, o Juiz eleitoral determinou ao oficial de justiça (escrivão ausente) que lesse em voz alta os nomes constantes na folha de votação.
Lá pelas tantas o escrivão leu: Quinhentos Réis de bosta! Juiz e presentes entreolharam-se estupefatos. É quando chega o escrivão eleitoral. Pegando da lista de votantes lê, em voz alta: Quintino Reis da Costa. O aluno que assinara a lista ainda engatinhava nas letras, daí entender erroneamente o nome do eleitor.

ELEIÇÃO A BICO DE PENA
Esse método de votação, quando ludibriar no resultado das eleições, constituía parte integrante da vida política tupiniquim, era conhecido como eleição a bico de pena. Amarrava-se o voto do eleitor que sufragava por compra ou por dívida de favor.
O voto secreto fez surgir a cada eleição um processo crescente de venalidade eleitoral e de desonestidade moral sem precedentes. O eleitor usava esse viés do voto secreto para assumir compromissos com vários candidatos, em troca de benesses (materiais de construção, enxovais para casamento, para criança, próteses dentárias, gêneros, etc.). Razão sobrava a Bertold Brecht quando disse: “O pior analfabeto é o analfabeto político”.
Eleitores eram meros instrumentos do domínio político. A metodologia da eleição a bico de pena devia-se ao pequeno número de eleitores existentes à época, proporcionando aos chefes políticos o conhecimento de memória do nome de todos os seus eleitores. Mas, como disse Giuseppe Tomasi di Lampedusa em seu notável Il Gattopardo, levado ao cinema por Luchino Visconti (O Leopardo), era preciso que as coisas mudassem para tudo ficar como dantes.
Realizavam-se eleições em todo o país a 19.1.1947, com a aplicação de nova metodologia de votação, consistindo em que o eleitor trazia de casa a cédula de votação já sufragada. Restava-lhe a obrigação de dirigir-se à mesa eleitoral, dela receber a sobrecarta vazia, colocar a cédula dentro, e depositá-la na urna.
Votou-se assim até 1957.

O VOTO CORRENTE
Fraude comum na época era o chamado voto corrente, o candidato entregando cédula falsa a um eleitor, com o voto marcado. O eleitor seguia para a votação e depositava a cédula falsa, trazendo a verdadeira em branco, trocada por dinheiro ou qualquer outra coisa. A partir daí o candidato entregava a cédula verdadeira para o próximo eleitor, que repetia o procedimento.

ATÉ AÍ IA O CONHECIMENTO ELEITORAL DE NOSSO PAI. E DEPOIS?
Até 1964, ano do início dos governos militares, governadores eram chamados presidentes estaduais e eleitos pelo voto popular. Depois dessa data passaram a ser eleitos como governadores, pela Assembleia estadual, de forma indireta. O governador eleito nomeava o prefeito da capital de seu estado. A eleição para governador voltou a ser direta a partir de 1982, assim como os prefeitos das capitais. Em 1982 ocorreu eleição para todos os cargos, exceto presidente.
O voto era manual, bem como o demorado procedimento de apuração. Utilizava-se antigas urnas e cédulas de papel. Nestas se marcava o nome do candidato, a seguir colocado na urna.
Votação para vereador, deputado e senador seguia basicamente o mesmo figurino, mesmo para prefeito, exceto capitais, onde era nomeado, durante o governo militar (1964-1985). Brasília, que não possui prefeito, é administrada pelo governador do DF.

A URNA ELETRÔNICA DE 1994
Em 1994, a primeira urna eletrônica foi testada em algumas cidades pequenas. O eleitor votava manualmente e depois repetia seu voto na urna eletrônica: o resultado de ambas as votações foi bem próximo. Em 1996 e 1998, a urna eletrônica seria usada apenas em cidades grandes. A partir de 2000 passou a ser utilizada em todo o país. A urna eletrônica acelerou o procedimento a totalização dos votos sendo conhecida em poucas horas. Não foi aceita universalmente, contudo, por ser alvo fácil de fraude, manipulação. EUA, Alemanha e França possuem versões próprias de urna eletrônica, diferentes do modelo brasi- leiro. Mas vamos reconhecer que o advento da urna ele- trônica foi alteração relevante, responsável para que votações e apurações dos pleitos ocorram com rapidez e segurança. 
Presidentes foram eleitos de forma direta em 3 períodos de nossa história (1889-1930, 1946-1964 e de 1988 até agora). Antes de 1889, o Brasil-Império era governado pelos imperadores Pedro I (1822-1831, nove anos) e depois Pedro II (1831-1889, 58 anos). De 1889 a 1894, o cargo de presidente ficou com Marechais: Deodoro da Fonseca e, depois, Floriano Peixoto. A partir de 1894, inicia a chamada República café com leite, o cargo de presidente dividido entre SP (produtor de café) e Minas Gerais (produtor de leite). Era o período do voto cabresto, as eleições dirigidas pelos coronéis que, costumeiramente, fraudavam as eleições.
São 35 anos até 1929, quando o presidente Washington Luis, paulista, deveria indicar um mineiro para concorrer à presidência. Indicou o paulista Júlio Prestes, contrariando o governo de Minas que decide apoiar o gaúcho Getúlio Vargas à presidência. Vargas tinha como vice o advogado e político João Pessoa Cavalcanti de Albuquerque, presidente da Paraíba (1928-1930), sobrinho de Epitácio Pessoa, presidente da República (1919-1922).
Ainda na governança, foi assassinado na Confeitaria A Glória, Rua Nova, no Recife, por João Dantas. O fato é considerado uma das causas da Revolução de 1930, que depôs o presidente Washington Luís e levou ao poder Getúlio Vargas.
João Pessoa foi homenageado dando seu nome, a partir de 4.9.1930, à capital do estado da Paraíba.
Mas a eleição presidencial é vencida por Prestes.  Porém, com o assassinato do vice de Getúlio Vargas, o paraibano João Pessoa, surge pretexto para iniciar a revolução de 1930 que depôs Washington Luis e fez Getúlio Vargas assumir e não Júlio Prestes.
Deixaria o cargo em 1937, porém, um golpe de estado o deixou no governo até 1945, quando foi alijado do poder. A partir de 1946 volta a haver eleições para presidente. Vargas, eleito por voto popular (1951), suicida-se em 1954.
A partir daí, e por dez anos, as eleições para presidente seguem o mesmo modelo atual, até 1964, quando João Goulart, vice de Jânio Quadros, que renunciou pouco mais de 8 meses após assumir, é deposto pelos militares, acusado de ser comunista.
As eleições presidenciais passam a ter forma indireta, votação pela Câmara Federal do presidente nomeado (sempre um militar). Em 1984, após 20 anos de presidentes militares, e recrudescendo os protestos populares, Tancredo Neves é eleito para a presidência. Devido a problemas de saúde, morre em 1985, sem ocupar o cargo, assumido pelo vice, José Sarney.
Brasileiro não perde a oportunidade de produzir uma boa história, mesmo diante de uma tragédia como a morte. Boris, bom Otorrino que era, contava na época que Tancredo sofrera várias cirurgias abdominais antes de falecer. Um desfile de cirurgiões paulistas, exibindo habilidades professorais, fez-se presente na capital federal. Debalde. No período morre Joviano de Rezende Filho, um dos maiores oftalmologistas que o país já produziu. É quando Boris surge com a novidade, Tancredo à morte.
- Ele vai ser operado do ouvido, parece que Rudolph Lang, de Porto Alegre, já foi convocado.
- É mesmo? E por quê?
- Acham que ele ficou surdo. Jesus está chamando e ele nada!

VOLTAM AS ELEIÇÕES PRESIDENCIAIS 
Depois de 1989. Nesse ano surge mudança significativa: se candidato para presidente, governador, ou prefeito de município com mais de 200.000 eleitores não obtiver mais de 50% dos votos, maioria absoluta, sem contar os brancos e nulos, haverá segundo turno entre os dois mais votados.
O primeiro presidente eleito após a ditadura, Fernando Collor de Melo, elegeu-se em segundo turno, contra Lula, sendo destituído em 1992. Em 1996, foi aprovado reeleição para os cargos de prefeito, governador e presidente. Todos os 3 presidentes eleitos após: FHC, Lula e Dilma foram reeleitos. Já Dilma, foi impeachada; em 2014, a reeleição foi invalidada e, a partir de 2018, não será mais válida.
O horário eleitoral depois das três primeiras exibições se torna chato e repetitivo, sem falar dos marqueteiros soprando cada sílaba que o candidato deva pronunciar. Pesquisas maquiadas divulgadas naquele espaço revelaram-se fonte importante para ajudar o eleitor a escolher os seus representantes.

BORIS E O CANDIDATO A VEREADOR
Certo candidato a vereador, cliente do Boris, procurou-o para cabalar seu voto. Falava grosso: entre colegas de turma do Lapagesse contara seguros 50 votos, vamos dizer 25. Na Próspera, estava com tudo na mão, porque tinha apoio por baixo e por cima, inclusive dos comunas, pelo menos 100 votos, mas vamos dizer 80, já são 105. Na Santa Bárbara, a sogra era uma potência, porque essas coisas de igreja e de caridade era tudo lá com ela. Só na Santa Bárbara tinha a eleição garantida. Manif, no São Simão (sabe que ele é o médico dos pobres e ele é todo meu, batata, cem por cento). Estava eleito, sem contar mais nada, sem falar no pessoal da Forquilhinha, que o avô era alemão da Pomerânia, unha e carne com os Arns, Steiner e outros.
- Você sabe que minha mãe e minha tia são professoras de Grupo, só de professoras vai ser um xuá. Tem também a turma do xadrez, Tuffy à frente, frequentando o Mampituba à noite. Tinha dois diretores de Centro Espírita, fora o pessoal do Comerciário, da Prefeitura, da Força e Luz, da Telefônica, da Rádio e da Tribuna.
No cinema, Boris encontra o candidato, rodeado de gente estranha. Agarra Boris pelo pescoço, apontando-o com o braço livre:
- Este aqui é meu, de cabresto!
Apurados os votos, não deu nem para a saída. Paciência...
Boris mandou-lhe um bilhete, explicando que dera seu voto a outro candidato; pois se ele já se achava eleito! Dizia: esse negócio de voto, no fundo é uma indecência, só servindo para ensinar o eleitor a mentir. A eleição seria uma grande farsa; se o cidadão não pode assumir a responsabilidade de seu próprio voto, de sua opinião pessoal, que coisa de República é essa?
Boris escreveu: vou te dizer uma coisa com toda a franqueza. Essa tal de Câmara Municipal não era lugar para um sujeito decente como você. Seu, de cabresto, Boris.
BORIS PAKTER CONTINUA PRÓXIMA SEMANA

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