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Henrique Packter

OTTO FEUERSCHUETTE, segundo médico em Tubarão

19/01/2019

“Ainsi, il me paraît, em ce moment, que la mémoire est une faculté merveilleuse et que le don de faire apparaître le passé est aussi étonnant est bien meilleur que le don de voir l’avenir”. Anatole France.
(Assim, parece-me, neste momento, que a memória é uma faculdade maravilhosa e que o dom de revelar o passado é também surpreendente e muito melhor que o dom de ver o futuro).
Encontrar quem fale o brasileiro já é bem difícil. Encontrar quem fale o inglês é outra complicação. Já no que se refere ao idioma francês é praticamente impossível. Em minha época de aluno de ginásio e mesmo mais tarde, matriculado na universidade, a linguagem culta era a francesa. Nossos livros didáticos eram em espanhol ou francês. Toda a Fisiologia era do argentino Houssay e Anatomia Descritiva do francês Testut.
E quem eram esses ilustres personagens?
Bernardo Alberto Houssay (Buenos Aires, 10.4.1887 e 21.9.1971), foi fisiologista argentino, agraciado com o Nobel de Fisiologia ou Medicina (1947), por pesquisas sobre hormônios da glândula hipófise.
Jean Leo Testut (Saint-Avit-Sénieur, 1849 - Bordéus, 1925), é um dos mais reputados anatomistas do mundo.
Estudou Medicina em Bordéus, estudo interrompido (Julho de 1870) pela Guerra Franco-Prussiana. Condecorado com a Legião de Honra por mérito militar, recusou-a, embora a tenha recebido depois, por mérito acadêmico. Terminada a guerra (1871), apenas em 1878 Jean Leo Testut regressa à Escola de Medicina de Bordéus, na qual conclui a tese de doutoramento, sobre a pele humana, tese que lhe granjeia grande reconhecimento no meio científico. Recebe medalha de prata da Faculdade de Medicina de Paris, medalha de ouro da Academia das Ciências Médicas de Bordéus e o prêmio Godard da Academia de Medicina Francesa.
Chefe dos Trabalhos Anatômicos da Faculdade de Medicina de Bordéus  (1878-1884), em 1881 é nomeado professor agregado da mesma faculdade. Em 1884 vai para a Universidade de Lille, que troca pela Universidade de Lyon (1886). Retira-se do ensino (1919, 60 anos), já reconhecido como notável investigador e professor. Mas, seu trabalho e investigação nas áreas da anatomia, antropologia e história não finda; continuou sempre ativo até a morte (1925). Existe museu de anatomia em sua homenagem (Lyon) e um colégio Léo Testut (Beumont).
O Traité d'anatomie humaine (4 volumes), ainda hoje considerado um dos mais completos e bem ilustrados tratados de anatomia é sua obra mestra. Continua a ser adotado em Faculdades de Medicina sendo um dos livros mais consultados por estudantes de medicina.
OTTO FEUERSCHUETTE ESTUDOU NO TESTUT, MAS NÃO NO HOUSSAY
“A banda musical Minerva tocando belo dobrado precedendo a comissão de recepção (...) doutor Cândido Leão, juiz de direito, major Accacio Moreira, capitão Alexandrino Barreto, João Nunes Teixeira, capitão Henrique Hulse e Hermínio Menezes, redator desse jornal” “gentis senhoritas de branco, cada uma conduzindo uma salva cheia de pétalas de flores naturais, em redor da senhorita Armely Menezes, portadora de lindo ramalhete preso por longa fita cor de rosa onde se lia: A MULHER TUBARONENSE AO DISTINTO DOUTOR FEUERSCHUETTE” “o entusiasmo era indescritível” “o doutor desceu do carro sob profusa chuva de pétalas de rosas que lhe eram jogadas por centenas de gracis senhoritas” “préstito desfilou pelas ruas Deodoro, Lauro Muller e São Manoel, vivando incessantemente o ilustre recém-chegado” “de todas as casas pendiam (...) belas bandeirinhas” “em frente ao Clube 7 de julho, Trajano Cardoso, conceituado farmacêutico, levantou arco de bambu em cujo centro se lia: SAUDAÇÃO DO POVO” “dois lindos arcos (...) trabalhados pelos Srs. Augusto Hulse, Sylvio Búrigo, Paulo Medeiros, Antônio Castro, Pedro Souza e Francisco Orige” “passando o doutor OTTO, a cesta abriu-se espargindo profusamente pétalas de rosa, soltando lindos pombinhos brancos”  “usou da palavra o Sr. Dr. FERREIRA LIMA (...) saudando seu ilustre colega” “à noite (...) queimando lindos fogos de bengala e precedida da simpática banda musical Lira Tubaronense dirigiu-se à residência do Dr. OTTO afim de lhe fazer entrega de dois lindos exemplares de polianteia (antologia), em fino cetim verde e outro em cetim cor de rosa”.
Na ocasião discursaram o advogado Alexandre Barreto e Miguel Faraco, este encarregado da agência telegráfica da cidade. Os exemplares foram conduzidos em (lindas) salvas de prata pelas gentis senhoritas Thamar Faraco e Adelaide Santiago. OTTO chegado em 1910 a Tubarão, então visita o hospital de caridade, fundado a 3.5.1906. Mantido e criado pela Sociedade Divina Providência o Hospital Nossa Senhora da Conceição, hospital geral  com 394 leitos, é o maior de SC em número de leitos.
Ainda em regozijo à chegada de OTTO, em frente ao Café Estrela do Sul foram realizados concorridos divertimentos.
O INÍCIO
Mulher em trabalho de parto numa espécie de paiol atrás de residência, achava-se pendurada pela barriga, suspensa por uma cincha, faixa de couro usada para fixar as selas na barriga de animais de montaria. A pressão exercida pela cincha tinha como objetivo comprimir o feto para que a délivrance ocorresse. Infelizmente o feto não sobreviveu ao tratamento absurdo e OTTO pode salvar a mãe, o que não era pouca coisa, considerando-se as circunstâncias.
Em abril de 1910 a primeira cirurgia, uma amputação do braço esquerdo de Ernesto Benatti que ficou 3 dias e 4 noites com o braço esmagado por uma tora no meio de mato cerrado, vendo formigas gigantes, as tapiocas, devorarem seu braço gangrenado. OTTO salvou o homem após 3 meses de tratamento hospitalar.
Atendimentos em lugares distantes eram frequentes. O jornal A Folha do Sul (Tubarão, 11.4.1915 e 5.12.1915) relata dois atendimentos em São Joaquim. Não era pouca coisa levando-se em conta que logo ali, em Lages, César Sartori exercia com grande competência sua honrada Medicina.
Também no Vale do Braço do Norte, viajando de trole ou a cavalo. Mario Belolli, historiador criciumense, escreve em A História do Carvão de Santa Catarina que em 1920 a CBCA de Henrique Laje, com a participação de OTTO criou a primeira providência assistencial.  A IMPRENSA, de Orleans (1º.8.1920) registra que mineiros e trabalhadores são informados da nomeação do médico. Todas as sextas-feiras OTTO atendia mineiros e suas famílias. Nas ausências era substituído por AURÉLIO RÓTULO, médico da Laguna. OTTO teria também atendido em Morretes (Maracajá), anotação no livro de Jairo Arno Matos de março de 1910.
CÉSAR ÀVILA
Ao lado do Professor Mário Braga de Abreu, os dois maiores cirurgiões que já vi operar. O primeiro em Curitiba (meu professor de Clínica Cirúrgica) e o segundo, cirurgião em Lages. César Ávila nasceu pelas mãos de César Sartori, de quem ganhou o nome. O lageano descreveu seu xará e parteiro como “magro, já um pouco curvado, alto, nariz adunco, surgindo em Lages com a roupa que trouxera da Itália, os mesmos sapatos pesados europeus, vindo de Urussanga a cavalo, onde foi o primeiro médico”. Cesar Sartori nasceu em Vicenza na Itália e veio a falecer em Lages (1945). Toda sua bagagem coubera em dois cargueiros com bruacas. Poucas roupas, muitos livros e ferros de cirurgia. Tratados de cirurgia e anatomia livros de filosofia, política, literatura e poesia. Ali estavam entre outros, Malatesta (o anarquista), Schopenhauer (o pessimista), ao lado de Voltaire e de Dante. Era 1905. Já entrara nos 40 anos. 
César Ávila conta de seu nascimento, partejado por Sartori:
Otto Feuerschuette nasceu a 09.04.1881, teria 24 anos na chegada de Sartori em Lages e Cesar Ávila, um ano de idade, “nasci um prematuro de menos de dois quilos.
- Vai morrer. Batizem! Procurem uma caixa de sapatos para o enterrar -, sentenciou Cesar Sartori.
Foi um corre-corre. Veio o padre. Batizou-me e o médico foi o padrinho. Anticlerical ferrenho, botou todo o veneno de sua descrença nesta cerimônia.
- Ponham meu nome porque vai morrer. Chamem-no de César. Meu nome e do imperador romano:
- E como é muito pequeno incrivelmente pequeno, batizem-no de César Augusto, César, o grande!
Havia o problema da alimentação.
- O que vamos dar pro menino?
E Dr. César, pensando um pouco:
- Agora, uma colher de vinho do Porto. Como vai morrer, aproveitará pelo menos uma das coisas boas da vida. Depois ... não precisará de mais nada...
Foi minha primeira experiência de como é falho o prognóstico. Não morri. Meus pais adotivos tiveram um trabalho enorme para conseguir ama de leite. Mamei numa Índia depois de ter mamado numa cabra. Herdei de ambas a tendência nômade que me fez nunca parar num mesmo lugar.”
O anarquista Cesar Sartori nasceu a 15.2.1867 em Vicenza (Vêneto, Itália). Em 1891, estudante universitário, militava no Partido Revolucionário Anarquista-Socialista, organização que pretendia unir todas as forças libertárias num único movimento insurrecional. Em 1893 gradua-se em Medicina pela Universidade de Pádua. A militância no movimento libertário vai implicar em perseguições e prisões. Seguidor de Enrico Malatesta e de Andrea Costa, era apaixonado pela filosofia (Schopenhauer), literatura (Voltaire) e poesia (Dante). Em 1902, buscando trabalho, saúde e liberdade, emigra para o Brasil, instalando-se primeiramente em Urussanga S/C.  Parece que a doença que tinha era tuberculose e o clima de Urussanga não lhe era favorável, estabelecendo-se definitivamente (1903) na altitude de Lages, onde monta clínica (Casa de Saúde). A 1º.5.1908, 100 anos atrás, graças à sua intervenção, Lages celebra pela vez primeira o 1º de maio.
Todos os domingos, enquanto muitos se ocupavam da missa, reunia-se com intelectuais. Colaborava com a imprensa italiana de esquerda, socialista e sindicalista revolucionária que editava no Brasil (Avanti!, Tribuna Italiana e La Scure). Criticava duramente a imprensa servil ao poder e à Igreja Católica, tanto italiana como brasileira. Redigia artigos antimilitaristas. A propósito, Scure significa Machado. Em 1930 filia-se ao Partido Socialista Unitário dos Trabalhadores Italianos (PSULI) e em 1933 ao Partido Socialista Italiano (PSI), sempre no setor anarquista daquelas agrupações políticas. Íntimo amigo do anarquista Nulo Beccari, entre os anos trinta e quarenta realiza diversos estudos antropológicos sobre os costumes morais dos índios do Mato Grosso (boróros, terenos e caigangues) e do RS (coroados). Publica-os em diversas revistas (A Voz de Chapecó e O Clarim), chegando à conclusão que a moralidade dos indígenas, era superior à dos brancos e que a criminalidade entre eles era inferior à dos civilizados. Reivindica para eles assistência médica permanente, com a finalidade de combater doenças endêmicas e epidemias.
Muito daquela documentação antropológica e sanitária dos pobres indígenas, ficou inédita. Sartori exerceu a Medicina totalmente de forma altruística (negros, indígenas e pobres) de Lages/SC. Já idoso atendeu uma cliente miserável em noite fria e vai morrer da pneumonia que contraiu, em 12.7.1945. Seu enterro foi manifestação de todas as classes sociais, especialmente das mais modestas; seu caixão, por expressa designação sua, vai ser carregado por membros da comunidade negra e dos pobres da cidade. Em Lages há uma rua que leva seu nome e ganhou busto na praça João Ribeiro.
A chegada de César Sartori a Lages (1903) e a chegada de Otto Feuerschuette a Tubarão (1910), têm datas próximas. Paulo Carneiro vai chegar na Laguna em 1930. CÉSAR Augusto da Costa ÁVILA, nascido a 26.7.1906, em Lages/SC, contava 4 anos. Faleceria em 19.2.1974 em POA/RS. Formado em Medicina no RJ em 1930, foi colega de Paulo Carneiro, trabalhou em Lages, Florianópolis, Nova Veneza, Antonio Prado, POA. Nesta última cidade radicou-se, foi professor concursado da Cadeira de Ortopedia na UFRGS. Fundou a Casa de Saúde Independência. Cirurgião de renome nacional e internacional, dedicou-se também à pintura e â literatura escreveu contos e uma autobiografia (REVELAÇÕES DE UM MÉDICO).
RISCO CIRÚRGICO
Todos eles eram cirurgiões: Sartori, Feuerschuette, Paulo Carneiro, César Ávila. Naquela época, do Caburaí ao Chuí, não havia como estabelecer - nem remotamente - os riscos do ato cirúrgico, algo tão presente em nossas preocupações quando decidem operar-nos.
Como? Não sabia que o Oiapoque não é mais o extremo norte brasileiro? Pois não é mais mesmo. O monte Caburaí, 1 465 metros de altitude, na serra do Caburaí, na borda de imenso planalto, delimita nossa fronteira norte com a Guiana, no município roraimense de Uiramutã.
Já se considerou como nosso extremo norte, o cabo Orange, rio Oiapoque, estado do Amapá.  O cabo Orange, situa-se 84,5km mais ao sul que o monte Caburaí. Em 1931, a serra do Caburaí apareceria como ponto extremo do norte brasileiro nas anotações do capitão de mar e guerra Brás de Aguiar, chefe da Comissão Brasileira Demarcadora de Limites. Aguiar concluiu que o ponto extremo norte do Brasil era a serra do Caburaí em detrimento do monte Roraima, no mesmo estado.

Próxima semana continua OTTO FEUERSCHUETTE

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