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Henrique Packter

BORIS PACKTER, primeiro broncoesofagologista

22/09/2018

MAURÍCIO FERNANDO PEREGRINO DA SILVA nasceu no RJ, cidade onde fez todos os seus estudos. Colou grau em Medicina pela atual UniRio em 1968. Há uma diferença a favor de Boris de dois anos falando-se de iniciar a vida profissional, Boris em Criciúma, Maurício em Orleans. É especialista em Clínica Médica e atuou também em Cirurgia Geral. No antigo INPS, foi aprovado em concurso público como obstetra. Realizou mais de mil e duzentos partos. Trabalhou inicialmente em Orleans, cidade onde EMIR BORTOLUZZI DE SOUZA era o único médico.
O distrito de Orleans do Sul, criado em 2.10.1888, englobava a área de mineração requerida pelo Visconde de Barbacena e Pindotiba, na época denominada Raposa, a rigor a primeira região habitada.
Criação do município em 30.8.1913 é resultado do trabalho das lideranças locais e de políticos tubaronenses, à frente o Deputado Acácio Moreira. Era composto dos distritos da Sede, Lauro Müller, Grão-Pará e Palmeiras (hoje Pindotiba). Desde 1970, a grafia correta do nome do município é Orleans. O distrito de Lauro Müller emancipou-se em 5.10.56, Grão-Pará em 21.6.58 e uma parte de São Ludgero foi transformada em município a 14.6.63.
Boris era amigo de Emir e dele recebeu convite para trabalhar em Orleans, uma vez por semana, no Hospital Santa Otília. Lá ia ele toda quarta-feira atender a população da região.
A 4.10.1938 nasceu o hospital de Orleans. Após exame e parecer da comissão técnica, passou a denominar-se HOSPITAL MUNICIPAL HENRIQUE LAGE, reconhecimento à colaboração prestada pelo político que era proprietário da Empresa Mineradora Carvoeira de Lauro Müller. A homenagem também se devia pela participação ativa desde o início da obra dos engenheiros da referida Empresa Reinardo Schmithausen, Walter Weterli, Marcio Machado Portela, Wilson Gonçalves e Nestor Gigueira.
O hospital iniciou seu funcionamento com os médicos José de Lerner Rodrigues e Antônio Dib Mussi. A inauguração somente ocorreu em 15.01.1939. Foi nesse dia, segundo boatos, que, ao visitar as obras da ponte sobre o Rio Tubarão, na chegada de Urussanga, o Interventor Nereu Ramos tomou conhecimento do nome escolhido para o hospital. Não gostou e indagou o nome da padroeira do município.
Ao discursar disse: “Estamos aqui em Orleans para visitar as obras desta ponte e também estaremos inaugurando o Hospital Municipal Santa Otília, cujo nome é dado em homenagem à Santa Padroeira desta paróquia.” Mais que depressa o Prefeito José Antunes Matos determinou aos fiscais da prefeitura Hugo Claumann e Gastão Cordini que corressem ao hospital a remover a placa com o nome Henrique Lage (Orleans 2000 - História e Desenvolvimento. Jucely Lottin. Pág. 167. 1998).
Mais tarde, Maurício mudaria para Criciúma, onde trabalhou por doze anos, cinco horas por dia, no Pronto Socorro do Hospital São João Batista. É cidadão honorário de Criciúma e Juiz no Tribunal Arbitral de Criciúma, onde atua em processos médicos. Também escreveu Verdades e Mentiras Sobre Médicos (2001), seu primeiro livro.
No Verdades e Mentiras Sobre Doenças, há dois capítulos que me chamaram a atenção. O primeiro Boca, Faringe, Traqueia, Esôfago, Laringe (pág. 136) e Sinusite (pág. 186). São dois artigos que têm tudo a ver com a especialidade que Boris exercia em Criciúma e me fizeram lembrar de episódios por nós vivenciados. Maurício Peregrino faz pesquisa primorosa dos assuntos que aborda.
Ensina o que é faringe. Você já teve faringite? Pois é a inflamação da faringe, que é o que você vê quando abre a boca e enxerga lá no fundo aquele tecido avermelhado (orofaringe), ensina Maurício. Pra cima há uma cavidade que na verdade constitui os fundos das narinas, território das adenoides, responsáveis por aquela ronqueira das crianças (rinofaringe). Mais pra baixo está o laringe (laringofaringe), órgão da voz. Laringe e rinofaringe só são vistos com equipamentos. O laringe tem dois canais, um conectado com o estômago e o outro ligado ao pulmão. O faringe tem a válvula (glote) que impede aos alimentos sólidos ou líquidos caírem na árvore respiratória, via traqueia. Por este mecanismo, alimentos e líquidos são remetidos para a via digestiva, o esôfago.
Chegando ar na faringe a válvula tapa o esôfago e o ar entra na traqueia e brônquios. Quer dizer, o tubo da frente é para passagem do ar, para a respiração e o tubo de trás é para a alimentação. Taqueia na frente, esôfago atrás. Maurício adverte para nunca dar de beber a pessoa inconsciente. O mecanismo de válvula estando inoperante você pode matar por sufocação essa pessoa que vai receber o líquido na traqueia!
Maurício acha que estamos mal construídos. Deveríamos, sim, ter a boca no lugar do nariz e vice-versa. Desta forma, o ar da respiração, entrando pelo nariz (abaixo, no lugar da boca), cairia direitinho no primeiro tubo (da respiração) e o alimento, entrando pela boca, mais acima, cairia no tubo de traz evitando problemas de trânsito e a pessoa inconsciente poderia receber água para beber, sem risco de sufocação.
Também já se poderia acrescentar a essa alteração pelo menos colocar mais um olho, na nuca, talvez também aumentar o número de braços, com inegáveis vantagens para o PIB do país.
Esta interessante notícia do Maurício traz-me à lembrança uma outra, de Ruy Castro. Ele leu em algum local que cientistas japoneses estariam criando rãs sem cabeça. A nota acrescentava que o processo poderia ser estendido aos humanos. Todos nós entendemos a vantagem de criar rãs sem cabeça: o intelecto não é uma das maiores características das rãs. Pensar na economia de tempo para os restaurantes que aproveitam delas apenas as pernas, e à milanesa. Mas para que criar seres humanos sem cabeça? Já existe por aí milhões de criaturas para quem ela não serve pra nada, exceto usar um boné ao contrário.
Humanos sem cabeça parece que serviriam apenas como doadores de órgãos. É de pensar, que indivíduos destituídos de cabeça estariam condenados a nunca participar de magnas comemorações como ver o Internacional sagrar-se campeão brasileiro, algo que vai ocorrer inda agora, neste ano. Também estarão condenados a jamais ver a Juliana Paes desfilando na Mangueira.  
Maurício discorre com o mesmo brilho quando fala sobre sinusite. Sinusite era e ainda é sinônimo de dor de cabeça. Pessoas vinham já com diagnóstico mais ou menos elaborado, graças às vizinhas, comadres, farmacêuticos. Avultavam os diagnósticos de calor de figo, entidade abrangente englobando todos os problemas digestivos e mais algumas mazelas esotéricas.
Tinha o mal da terra, a espinhela caída, a dor no vazio, a ideia fraca,  chia, senozite, xaqueca, a papeira, a doença do gato (pela sua forma de transmissão), a barriga d’água, desarranjo, quebranto (mau olhado), algueiro, campainha caída, febre cesão, difruço, dor nas cadeiras, dor no espinhaço, estombo, dor nos quarto, dordói, empachado, estopor, fastio, gastura, impinge, enquizila, morroidia, nó nas tripa, quarto arriado, pereba, tirissa, vazamento, esquentamento, cobreiro, intupido, andaço, quebradeira.
Maurício ensina que sinusite passou a ser sinônimo de dor de cabeça. Radiografias se sucediam, ora para diagnóstico, ora para ver como estava a situação. Certos ossos do crânio são dotados de cavidade, conhecida como SEIO. Sinusite é uma inflamação da mucosa, pele fina que reveste essas cavidades, esses SEIOS. Temos essa pelezinha em muitos locais do corpo. Por isso, mucosa gástrica, intestinal, bucal...     
Daí sinusite frontal, maxilar, esfenoidal dependendo do seio afetado. Podemos também ter uma pansinusite, no caso de todos os seios estarem inflamados/infectados a um tempo. A dor da sinusite piora quando se apanha sol ou quando a gente se abaixa. Com grande propriedade, Maurício encerra o capítulo aconselhando que se você sofre de dor de cabeça constante ou episódica vá ao médico. Obtenha dele diagnóstico de certeza garantindo que você tem mesmo sinusite. Obtido o diagnóstico, trate a doença, até certificar-se de que está mesmo curado. A cura não assegura imunidade e a sinusite pode voltar a qualquer momento, após uma gripe ou um simples resfriado. Cuide-se.
O livro de Maurício Peregrino, na sua simplicidade e grande trabalho de pesquisa – didático e esclarecedor –, é daqueles que é bom ter nas mãos para eventual consulta.

HISTÓRIAS COM BORIS
O jornalista Luiz Antônio Soares, dotado de permanente inquietação profissional, já escreveu que povo sem história é povo sem alma. Vai às últimas consequências quando se trata de advogar princípios, valores, convicções, segundo Moacir Pereira, que ainda acrescenta: é um jornalista competente punido em sua própria terra pela inveja dos medíocres.
Pois Soares escreveu e publicou livro no qual conta dois episódios também vivenciados por Boris. Levei meu irmão a Laguna para conhecer Paulo Carneiro, um dos monstros sagrados da Medicina e da Política catarinense em todos os tempos. Voltou da velha Laguna, e não podia ser diferente, impressionadíssimo. O próprio Paulo contou-lhe a história do talho, envolvendo modesto pescador artesanal que o procurou após muitos anos de ausência.
- Meu filho, que feridas feias em tuas pernas! Quem foi o açougueiro que te tratou?
O pescador acusava médico de outra paróquia para onde se mudara havia muitos anos. Também aproveitou para reclamar dos remédios que não adiantavam de nada e das pomadas que aliviavam a comichão e não as pustemas.
Paulo Carneiro, enquanto examina o pescador, recrimina a inabilidade e a falta de conhecimento do outro médico. Um carniceiro, disse.
- E esse talho aqui, meu Deus?
- Isso foi aquela operação du apêndice qui u sinhô dotô feis daquela veis, não si lembra?
- Claro, pelo menos este está bem feito!  

BORIS continua próxima semana

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