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Henrique Packter

LAERSON NICOLEIT, primeiro médico no Morro da Fumaça

17/11/2018

E ESSA AGORA?
Deu na TRIBUNA e a notícia, até agora, aparentemente não provocou maiores reações. Essa apatia, este nada-fazer, nada-dizer e não manifestar-se, significa que a sociedade criciumense concorda com a inacreditável perda do prédio-sede da Cultura Municipal, pleiteado pelo coronel-comandante da Polícia Militar da 6ª Região?
Informação surgiu providencialmente logo após o encerramento da obra que restaurou o Centro Cultural Jorge Zanatta, promovida pela Prefeitura de Criciúma.
O coronel Cosme Manique Barreto, Comandante da 6ª Região da Polícia Militar, abrangendo os 27 municípios da Amrec e Amesc, utilizou espaço da Tribuna Livre, na Câmara de Vereadores de Criciúma, revelando querer ocupar a parte frontal do prédio do Centro Cultural Jorge Zanatta.
O coronel-comandante quer transferir para o local a sede da 6ª Região, que hoje funciona junto ao 9º Batalhão de Polícia Militar de Criciúma. “Essa circulação de policiais vai diminuir muito as ocorrências ali existentes”, disse. Na proposta, a Cultura utilizaria o pavilhão na parte de trás da estrutura.
O Centro Cultural Jorge Zanatta sofreu reparos e restauração porque o poder público, desde 1993, data da sua única reforma e restauração, patrocinada por Jorge Zanatta, não dedicou qualquer cuidado à manutenção do Casarão. A ida do coronel à Câmara veio com requerimento do vereador Júlio Kaminski (PSDB).
Outras sugestões
Vereadores sugeriram outros locais para instalação da PM, mas o coronel-comandante está irredutível, justificando sua atitude pela logística, arte que trata do planejamento e realização de vários projetos, muito utilizada durante as guerras. Afirmou ser seu sonho (e agora nosso pesadelo municipal-cultural), a instalação da 6ª Região no Centro Cultural Jorge Zanatta.
Memória cultural
A Cultura Criciumense utiliza o prédio histórico desde 1993, há mais de 20 anos, até 2015, quando teve interditado a totalidade de suas instalações. Propriedade da União, não haveria possibilidade de intervenção do Governo Municipal no seu restauro (vereadora Geovana Zanette, PSDB).
Mas, estimada vereadora, estariam também interditados reparos emergenciais, realizados com o objetivo único de impedir que o Casarão ruísse, como de fato ruiu?
Prefeito Clésio Salvaro obteve a cessão de uso (2017) e início da restauração, em fase final, inauguração prevista para 14.12.2018. Volta a FCC para seu legítimo local, trazendo ao espaço a biblioteca municipal, oficinas e outras manifestações culturais. Clésio Salvaro (PSDB) relatou não saber das intenções de Manique Barreto e que não se manifestaria antes de ser comunicado. Disse, que a princípio, o local é um espaço cultural.
A CULTURA, RESPEITÁVEL PÚBLICO
Conflitos culturais serão sempre cruéis e dificilmente se resolverão por diálogo. Como provar quem tem a razão? Contudo, o estudo da história pode fazer com que se alcance melhor compreensão dos fatos.
A solução dos conflitos não reside na litigância, mas em demonstrar certa tolerância. Litigar consome muita energia que pode ser canalizada para algo útil.  Se é sua intenção fazer um mundo melhor, desconfie das alegações fantasiosas, aprimore seu senso de observação, reavalie de tempos em tempos suas premissas e objetivos, estude as lições do passado e seja tolerante, em sendo possível.
O INÍCIO
Assumindo a direção da FCC, procurei Jorge Zanatta, acompanhado do arquiteto Fernando Jorge da Cunha Carneiro, encontrando-o no Balneário Rincão. Zanatta concordou em bancar a restauração do imóvel do DNPM para a FCC, impondo como condição que Gilberto João de Oliveira, Diretor Administrativo e Financeiro da FCC, recebesse as contribuições semanais. Falecido em 2013, Gilberto Oliveira foi cidadão exemplar dentro e fora da FCC.
CENTRO CULTURAL JORGE ZANATTA
Difícil fazer ideia do que foi lidar com o problema fazer retornar ao município, o uso deste Casarão. Construído na década de 1940 para o Departamento Nacional de Produção Mineral (DNPM), foi o local da instalação do primeiro serviço de água tratada da região.
A família do coronel Pedro Benedet doou o terreno que abriga o Centro Cultural da FCC, para a municipalidade. Em 1942 a Casa já era a sede do DNPM. O DNPM é autarquia federal vinculada ao Ministério de Minas e Energia (MME) criada a 08.03.1934.  Em 1944 o município doou o prédio para o Estado que em 1953 passou a ser a sede do Plano Nacional do Carvão, órgão ligado diretamente à Presidência da República. Em 1960 foi criado o Ministério de Minas e Energia e o DNPM a ele incorporado. Já em 1962 era administrado pela Comissão Executiva do Plano do Carvão Nacional. Utilizado como cárcere no primeiro ano do regime militar, o médico Manif Zacarias foi uma das pessoas aprisionadas no local. Em 1970 com a extinção do Plano Nacional do Carvão a Casa passou ao CNP (Conselho Nacional do Petróleo, criado em 1938). Em 1976 o Estado doou o prédio para a União. Em 1990 é extinto o MME criando-se o Ministério de Infraestrutura (MIE) ao qual DNPM e a Casa foram vinculados.
Em 1991, desativado o escritório do CNP, teria sido solicitada (sem êxito), a doação do prédio do MIE, para a cidade.  Em 1992 por sua vez é extinto o MIE, voltando à cena o MME; o DNPM é autarquia vinculada ao Ministério.
Em 07.05.1993, após contatos com o engenheiro Luiz Felipe Seara, diretor do DNPM/SC, a FCC ocupou metade do espaço físico do Casarão, criando ali o Centro Cultural Jorge Zanatta. Nesta ala passavam a operar a administração e a Oficina de Artes Plásticas e Cênicas da FCC. Também a Galeria de Arte e Pinacoteca. 
Periódicos criciumenses divulgaram a notícia de que a Procuradoria Geral da República (PGR) estaria se instalando em Criciúma, e que desalojaria a FCC do Casarão histórico. O Prefeito Eduardo Pinho Moreira, Liliane Motta da Silveira (substituta legal do Diretor-Presidente da FCC), o deputado Luiz Henrique da Silveira (presidente do PMDB), Adhemar Paladini Ghisi (Ministro do Tribunal de Contas da União) e eu, participamos em Brasília de reunião com funcionários da PGR.
MINISTRO ADHEMAR PALADINI GHISI
Nasceu em 24.12.1930 na Vila de Braço do Norte, que pertencia a Tubarão. Curso primário realizou no Grupo Escolar Jerônimo Coelho de Laguna, Escola Estadual de Guarda e Grupo Escolar Hercílio Luz, ambos de Tubarão. Secundários (1º Grau): no Ginásio Lagunense, Laguna (1946), e 2º Grau, nos Colégios Catarinense, Florianópolis (1948), e Diocesano, Lages (1947 e 1949).
Em 1951 e 1952, foi Secretário do Centro Acadêmico Maurício Cardoso, PUC/RS, onde estudava. Bacharelou-se em Ciências Jurídicas e Sociais na Faculdade de Direito da PUC/RS (1954). Lecionou na Escola Técnica do Comércio de Tubarão.
Na política foi parlamentar atuante, exercendo dois mandatos de Deputado Estadual e cinco de Deputado Federal. Iniciou na antiga UDN, filiando-se depois à ARENA e ao PDS. Era casado com Sônia Balsini Ghisi, filha de José Tarquínio Balsini, com quem teve três filhos.
Adhemar Paladini Ghisi, grande liderança política de SC, destacou-se na defesa dos interesses dos mineiros de Criciúma, dos pescadores de Laguna e Jaguaruna.
Empossado Ministro no Tribunal de Contas da União (TCU), em 06.3.1985, foi Vice-Presidente de 1988 a 1989 e Presidente de 1990 a 1991, aposentando-se em 2000.
Adhemar Ghisi morreu a 2.7.2008, aos 78 anos, em Lisboa, Portugal, por complicações de pneumonia, contraída em viagem de férias pela Europa. Velado no Salão Nobre do TCU foi sepultado no Cemitério Campo da Esperança, setor dos pioneiros, Brasília, onde residia desde 1985.
ADHEMAR GHISI, REUNIÃO
NA PGR, BRASÍLIA, 26.04.1994.
Figura política e humana maior, sua atuação foi decisiva, dominando sobranceiro a reunião na Procuradoria Geral da República em Brasília. O Procurador escalado para dirigir os trabalhos mal avistou o Ministro, levantou-se, braços estendidos:
- Chefe, que posso fazer pelo senhor?
A FCC continuaria utilizando o imóvel e batalharia para ocupar a outra metade da casa. A PGR iria operar em outro local, cedido pela prefeitura.
JORGE ZANATTA
Jorge Zanatta, nascido em Linha Torrens, 28.10.1924, pertencente na época a Urussanga, tornou possível a recuperação e restauração do Centro Cultural da FCC que leva seu nome com inteira justiça. Casado com Adelinda Bergmann, pai de quatro filhos, teve oito netos e um bisneto.
Filho de Vergínio e Angelina Búrigo Zanatta, trabalhou até os 15 anos na lavoura, engenho de farinha e na serraria da família. Mudou-se para Morro da Fumaça (1939), onde trabalhou por quase sete anos na loja de tecidos, secos e molhados de Nico e Santos Guglielmi. Em 1945 trabalha em Criciúma, como comprador e vendedor da loja de ferragens do irmão, Alcino Zanatta. Inaugurou em Criciúma (1956), estabelecimento no ramo de ferragens em geral, Zanatta & Cia Ltda.
Fundou Canguru Embalagens (1970), com outros sócios; a Promove (1973), indústria de edição e impressão de produtos gráficos. Criou mais três empresas em Criciúma, a Descartáveis Zanatta, a Imbralit e a Canguru Agropecuária (1974).
Desde 2007 dedica-se à presidência do Conselho de administração do grupo Jorge Zanatta. Foi conselheiro vitalício e colaborador do Criciúma EC. Cidadão honorário de Criciúma em 1996.
Jorge Zanatta faleceu aos 83 anos, em 4.10.2008, há dez anos, por complicações da insuficiência renal. Dos grandes industriais catarinenses, construiu um dos nossos maiores conglomerados econômicos, o grupo Jorge Zanatta, abrangendo empresas do setor plástico, químico e cerâmico.
OUTROS GRANDES COLABORADORES DA FCC
Com o decisivo apoio do senador Jorge Konder Bornhausen, o restante do prédio, subutilizado pelo Ministério de Minas e Energia, foi ocupado pela FCC logo após entrevista que tivemos com o senador, na Assembleia Legislativa em Florianópolis, a 24.11.1995.
Não é demais ressaltar e repetir que a FCC e Criciúma muito devem a JORGE ZANATTA, LUIZ FELIPE SEARA, EDUARDO PINHO MOREIRA, LILIANE MOTTA SILVEIRA, REALDO GUGLIELMI, LUIZ HENRIQUE DA SILVEIRA, JORGE KONDER BORNHAUSEN e ADHEMAR PALADINI GHISI.
MATÉRIA JORNALÍSTICA (2013)
O extinto Jornal da Manhã estampou matéria em 9 e 10.11.2013 intitulada Acervo público de obras está acomodado. Refere-se à FCC da qual fui o primeiro Diretor-Presidente em 1993.
SITUAÇÃO NA FCC DAS OBRAS DE
ARTISTAS PLÁSTICOS REGIONAIS
OBRAS EMPILHADAS, editorial do Jornal da Manhã, faz a “triste constatação (de que) numa das salas anexas do Teatro Elias Angeloni obras de artistas (...), estão empilhadas”, e, “Sem os cuidados necessários entram em deterioração” (...) “O Centro Cultural Jorge Zanatta, prédio histórico, está a ponto de desmoronar e enquanto recursos do Governo Federal não são liberados esse lado da cultura pede socorro”.
Na página 7, matéria de DJONATHA GEREMIAS esmiúça o assunto: 99 obras de 52 artistas doadas à FCC “são guardadas ali, sobrepostas umas às outras”.
Relatório de meados de 1995 da FCC: “o total do acervo da Galeria conta com 23 títulos além de inúmeros catálogos informativos, a maioria doados pelo MASP (...). São 26 obras de arte entre pinturas, gravuras, esculturas e colagens”. Obras conquistadas pela FCC em 30 meses de vida (quase uma aquisição por mês). Na Galeria de Arte OCTÁVIA BURIGO GAIDZINSKI, da FCC, nos seis meses (27/4 a 26.10.1995), ocorreram oito diferentes exposições para 1.500 interessados”. A primeira mostra da FCC de nossos artistas plásticos, teve todos seus 80 trabalhos adquiridos pelo empresário REALDO GUGLIELMI.
Na mesma matéria é entrevistada Daniele Zacarão, coordenadora de Arte da FCC: “Alguns trabalhos estão danificados há muito tempo. Obras em papel têm fungos e outras em madeira têm cupins”. Mais adiante: “a situação atual é resultado acumulado de muitas administrações. Há muitos anos o acervo foi criado sem condições de mantê-lo. Artistas que faziam exposições na galeria deixavam algumas obras em forma de doação. Outras pessoas da cidade que queriam desfazer-se de obras (...) as deixavam sob responsabilidade da Fundação. Nunca houve uma política de aquisição, nem uma identidade que caracterizasse o acervo”.
No período que respondi pela direção da FCC (1993/1996), a Galeria Octávia Búrigo Gaidzinski nunca recebeu doações de obras de pessoas que delas desejassem desfazer-se, por se tratarem de trastes. Também não assumi responsabilidade pela guarda destes bens além do período de minha gestão. E, as obras eram doadas, não deixadas sob nossa responsabilidade. Declarações de Daniele fazem pensar que não deveríamos ter criado o acervo artístico-cultural da entidade pela impossibilidade de acesso a exigências técnicas de conservação dos bens.
Criada em 15.03.1993, presidi a 10.04.1996 a última reunião da primeira gestão da FCC, entregando o cargo a Júlio Cezar Lopes, escolhido pelo prefeito Eduardo Pinho Moreira para substituir-me.
Pergunto se nosso diminuto acervo, menor que 100 telas, justificaria a “... criação de ambiente tecnicamente adequado para comportar o acervo, manter política de... restauração, recuperação e preservação das obras e criasse e executasse cronogramas de ações sociais para acesso público e circulação do acesso”.
Outras eram as prioridades. Quando assumi, necessitávamos de local para trabalhar: espaçoso, bem localizado, novo ou restaurado e sem ônus para os combalidos cofres municipais. Imóvel encontrado, nós o ocupamos e o mecenato de JORGE ZANATTA restaurou-o. Totalmente recuperada foi entregue à cidade em 1996.
A escassez de recursos quando da criação da FCC, aliava-se à atenção imediata que estavam a exigir o degradado Museu da Imigração Augusto Casagrande, o arruinado Teatro Elias Angeloni, o submerso Memorial Dino Gorini (ambos no Parque Centenário), mais a Mina Modelo, insolúvel problema jurídico. Somente a Biblioteca Pública Municipal Donatila Borba mais a Casa da Cultura Neusa Nunes Vieira não representavam problemas a exigir atenção. Os parcos recursos foram canalizados para prioridades, elencadas e cumpridas.

Próxima semana conclui Fundação Cultural de Criciúma.
 

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