Ir para o Conteúdo da página Ir para o Menu da página

Henrique Packter

DAVID RASKIN, primeiro OFTALMO e ORL

19/08/2017

Faz quase dois anos que escrevo sema-nalmente sobre Pioneiros Médicos do sul catarinense, seguindo ideia de ADELOR LESSA. Desde então, tem saído aos sábados uma página no A TRIBUNA com as peripécias destes desbravadores. Todo esse trabalho é o embrião de um livro, tardando quase dois anos para nascer, que cresce a cada semana, debaixo dos olhares de um terceiro cúmplice, o jorna-lista, escritor e professor LAUDELINO SARDÁ. Explica-se este vagaroso partejar pela dificuldade em contar com a colabo-ração de alguns colegas que nem sempre têm tempo para escrever e, infelizmente, às vezes, nem disposição. Mas nas páginas do A TRIBUNA está o que venho conseguindo. Muito agradeço aos colegas que, com entusiasmo, colaboraram e colaboram para essa realização.
Uma das minhas manias é escrever e, com o advento da era da informática, tenho escrito quando Deus é servido, contando passagens humorísticas e ou-tras nem tanto assim da atividade médica, das quais, de certa forma, participei ou simplesmente tomei conhecimento. Passei de contador de histórias a contador da História.

1. MAGENCO FINALIZA PANEGÍRICO A JOÃO DE ARAÚJO: O MÉDICO DE CABEÇA
... "o que resta ao otorrino da velha-guarda? Em minha opinião ou opta por envolver-se parcial ou integralmente com os novos tempos - assumindo consigo mesmo um compromisso para o qual não se sente apto ou disposto - seja por fadiga, seja por desencanto - ou se conforma em continuar à moda antiga, buscando tão somente a sobrevivência, sem qualquer veleidade de prestígio ou aceitação.  
Na primeira opção, mãos calejadas, olhos cansados, dedos já não tão firmes e, sobretudo, vontade e entusiasmo um tanto exauridos na extenuante batalha dos anos, reciclará conceitos, tidos até então como verdades definitivas, partirá para treinamento da visão microscópica. Vai miniaturizar sua habilidade gestual há muito condicionada para o campo a olho nu.
Esses obstáculos, esse imenso desafio, poucos conseguem vencer. Resta à maioria, aos que não se dispuserem a en-frentar essa verdadeira provocação, uma só alternativa: conformar-se, prosseguir como antes, abraçando o velho sempre que deixou de ser: a alegre adeno-amigdalectomia matinal, o desvio do septo semanal, uma sinusite aqui, um corpo estranho de esôfago ali.      
Esse o seu futuro, enquanto der... Como avaliar esse homem? Como apreciá-lo? Num julgamento superficial a crítica é sempre severa e pouco generosa. Mas será justa? Não terá sido ele, o legen-dário MÉDICO DE CABEÇA, que prota-gonizou traqueotomias dramáticas, expôs-se ao contágio de difterias e tuberculoses nos isolamentos, esvaziou com escopros e martelos empiemas sinusais e mastoídeos e praticou arrojadas cranio-tomias para alívio de abscessos cerebrais? Não foi ele também, que, dispondo apenas de tubos rígidos mal iluminados, salvou, em heroicas urgências, tantas crianças asfixiadas por miserável corpo estranho de pulmão?
Esse homem viveu sua época e - es-tejam certos - viveu-a intensamente. Qualquer veneração é pouca, e uma reverência respeitosa e agradecida é o mínimo que devemos oferecer a um herói que, talvez, nem se aperceba da sua grandeza.
E as novas gerações de otologistas, rinologistas e laringologistas? O que as espera? Novas mudanças se seguirão, inevitavelmente. O fluxo vertiginoso vai continuar no mesmo ritmo avassalador, literalmente impossível de acompanhar.
Assim como o otorrinolaringologista da última geração, levado de roldão pela fria impiedade dos novos tempos, teve que fazer sua opção com risco de naufragar irremediavelmente, novas opções serão impostas, cada vez mais difíceis de enfrentar. (...)
Estamos pagando pesado tributo ao progresso científico: a partir da nossa geração, o saber e o conhecimento passam a constituir um bem de consumo, rapidamente perecível. Tudo fica obsoleto em pouco tempo, e, se não estivermos aptos e dispostos a reagir continuamen-te..., nós também..." (De MARIO GENTIL COSTA, dedicado à memória do Dr. João de Araújo, um dos nossos mais legítimos e brilhantes MÉDICOS DE CABEÇA, com desculpas por certas liberdades).

2. SANTA CATARINA ANOS 60
Gaúchos e paranaenses referiam-se jocosamente a nós, catarinenses natos ou adotados, como o zero da BR-101. Apesar de nosso pequeno estado ter legado à república um presidente, NEREU RAMOS, e à história pátria figuras da grandeza de ANITA GARIBALDI e, mais recentemente, minha colega de turma ZILDA ARNS, a verdade é que nossos dois sufocantes vizinhos nunca nos levaram a sério. Mas já foi bem pior quando cheguei. O norte de SC tinha como capital Curitiba, enquanto que POA era a capital do sul. Tudo em Criciúma, com exceção do carvão mineral, vinha ou ia para o sul. Até automóveis nossos larápios iam afanar no RS!
Líamos o Correio do Povo diariamente, escutávamos a Rádio Guaíba, víamos a TV Piratini através de repetidoras, nossos médicos eram formados no RS (David Luiz Boianowsky, David Raskin, Dino Gorini, Júlio Manfredini, Sérgio Luiz Bortoluzzi, Sérgio  Hertel Alice, José Darci Silvestre, Gervani Bittencourt Bueno, Mari Sandra de Brito Petry, Antônio Pazzini, Agenor Silvestre, Alexandre Silvestre, Sílvio Búrigo, Álvaro Ronald Rocha, Celso Menezes, Portiuncola Caesar Augustus Gorini, Joacy Casagrande Paulo ...). Há muitos outros mais.
Diante desta falta de identidade seguíamos a reboque de políticas cultu-rais e científicas alienígenas. Quando não nos apropriávamos de elementos do folclore e das tradições gaúchas, era vi-sível uma profunda mestiçagem cultu-ral. Criávamos CTGs, dançávamos fandangos, líamos - é claro - Érico Veríssimo e Mário Quintana e nossos times eram Grêmio e Internacional. CTGs crescem como guanxuma, respondendo presente em 23 estados brasileiros.

3. AMIGDALECTOMIAS (TONSILECTOMIAS)
Impossível falar no primeiro ORL de Criciúma sem discorrer sobre amigdalectomias, na época a cirurgia mais executada na especialidade, no mundo. Esse dado remete a WALLACE MOLITERNO GARCIA, formado em 1958 na FMUFPR. Como todos os acadêmicos da faculdade na época, também ele trabalhou no          interior de SC e do PR, substituindo o - quase sempre - único médico de pequenas cidades interioranas. Funcionava assim: o médico (de Joaçaba, Videira, Orleans, Sombrio, Turvo, Jacinto Machado, Caçador) que desejasse ausentar-se por curto espaço de tempo de sua cidade procurava a Faculdade de Medicina mais próxima, investigava nomes e logo aparecia com proposta de trabalho médico temporário, a um acadêmico escolhido entre os mais promissores, geralmente do sexto ano. Encerradas as negociações voltava para sua cidade comunicando (através da única rádio local) que sairia em férias, viagem de estudos, ou qualquer outro motivo, por tanto tempo e que sua ausência, para que não houvesse prejuízo da saúde da população, seria suprida por professor da Universidade do Paraná.
Um dia antes da partida lá estava Wallace Moliterno Garcia, o Xiru,              conforme combinado. Na volta, contaria aos seus pares as acontecências de seu período de trabalho. Na manhã do primeiro dia de seu voo solo, aparece cidadão jovem que marcara sua amigdalectomia com o doutor saído em viagem. Não soubera a tempo da ausência, assoberbado com o trabalho da lavoura.
- O senhor não sabe operar garganta, sabe?
- Claro que sei!
Fica combinado o dia seguinte para a cirurgia. À noite, após a faina diária, Xiru estuda a execução da cirurgia nos alfarrábios do bom doutor. Pela manhã coloca uma banqueta encostada à maca do centro cirúrgico, prepara a mesa cirúrgica e dá início à anestesia local, após escovar mãos e antebraços, vestir avental e enluvar-se. Até aí tudo bem. Examina pela centésima vez o instrumento chave, o Sluder. Tinha a aparência de uma pequena pistola tendo               guilhotina retrátil na extremidade do cano. A amígdala era apreendida pelo buraco na lâmina e após certificar-se            de que toda ela ultrapassara a guilho-tina, a lâmina era cerrada por pressão no cabo da arma; com o dedo da mão livre o cirurgião rompia a frágil adesão da amígdala à loja onde ela estava si-tuada. Simples assim.
Na volta, centro das atenções no Diretório Acadêmico Nilo Cairo, rua Monsenhor Celso em Curitiba, Xiru admitia que nesta altura da cirurgia tivera um branco. Tentou extrair a amígdala, apreendida pelo instrumento, tracionando-a. Não funcionou, Xiru           puxava e o paciente vinha junto... Colocou o joelho contra o tórax do paciente: também não funcionou. Depois de uma luta insana conseguiu remover uma amígdala. O paciente, ainda cuspindo sangue, como numa extração dentária, conseguiu balbuciar:
- Doutor, vamos deixar a outra para outro dia!
Como era a ORL e Oftalmologia do RS e do PR fontes formadoras de nosso primeiro especialista?
Relatado dessa maneira, parece que éramos insensíveis aprendizes de médicos, fazendo pouco do sofrimento alheio. Na verdade, a maior parte dos causos não eram verdadeiros e sim um exercício da imaginação, que tínhamos fértil. 

4. GRANDES VULTOS DA ORL E OFTALMO
Se me fosse perguntado sobre grandes vultos das duas especialidades nos                      3 estados mais meridionais do solo brasileiro, eu apontaria sem medo de errar: WILSON DA COSTA CIDRAL, catarinense de nascimento, primeiro otologista em Curitiba e no Brasil, meu colega de turma e a família MOREIRA, de oftalmologistas puros, exceção feita ao Patriarca do clã, professor CARLOS ESTRELLA MOREIRA, nosso professor de Anatomia Descritiva no 1º ano. Fundador e membro titular do Colégio Anatômico Brasileiro, secretário da FMUFPR e da UFPR, diretor substituto da FMUFPR, decano do Conselho da FMUFPR e da UFPR, sócio fundador da Academia Paranaense de Medicina (1966), professor emérito da UFPR (1978), Cruz do Mérito (1982), aposentou-se em 1967, falecendo em 1991.
Na FMUFPR, a cadeira de ORL e Oftalmo só foi desdobrada em 1917.  Mas, ainda em 1920, LEÔNIDAS DO AMARAL FERREIRA regia as duas es-pecialidades. Só em 1925 CELSO DO AMARAL FERREIRA assumiu a ORL ficando LEÔNIDAS como lente da Oftalmo. CARLOS AUGUSTO MOREIRA (depois professor na Evangélica), ingressa na FMUFPR, Cadeira de Oftalmo em 1957; é livre docente em 1976. Desde 1981 em rodízio com PAULO ZELTER GRUPENMACHER, chefia a Cadeira de Oftalmo. CARLOS AUGUSTO MOREIRA e CARLOS AUGUSTO MOREIRA JÚNIOR (1990) disputam em concurso público a condição de Professor Titular da Cadeira de Oftalmologia. O pai abdica em favor do filho. Júnior nasceu em 1959, ano em  que me formei. Assumindo em 1990 a cadeira de Oftalmologia, tornou-se o mais jovem professor catedrático de Oftalmologia na história das faculdades brasileiras. Foi Reitor da UFPR. Ele, seu pai, a mãe SALLY BRUGMAN MOREIRA e o irmão HAMILTON MOREIRA deram outra dimensão e importância à Oftalmologia paranaense e brasileira criando o HOSPITAL DE OLHOS.
Em SC, destacarei três figuras exponenciais: JOÃO DE ARAÚJO, trabalhando na Oftalmo-ORL nos tempos primiti-vos; OTTO FREUSBERG, oftalmologista alemão radicado em Florianópolis e primeiro professor de Oftalmo na UFSC; MÁRIO GENTIL COSTA, professor catedrático de ORL na UFSC. O progresso veri-ficado nas duas especialidades em nosso meio tem tudo a ver com eles.
Já no RS, para onde rumavam os casos mais complicados do sul de SC, é algo mais complicado. Logo trataremos disso.

DAVID RASKIN continua na próxima semana

Últimas de Henrique Packter

Veja mais
Oba Delivery - Entrega de comida on-line