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Henrique Packter

OLAVO DE ASSIS SARTORI (CONCLUSÃO)

24/06/2017

1. O COBRELOA
SARTORI era o que hoje se conhece como torcedor fanático, roxo pelas cores de seu time, o Botafogo de Futebol e Regatas do RJ. Não podia sequer ouvir falar nos outros times, sobretudo no Flamengo, principal alvo de seus rancores futebolísticos. Chega 1981, quando o Flamengo disputaria a Copa Libertadores da América contra o desconhecido Cobreloa do Chile. Cercamos Sartori no Centro Cirúrgico.
- Sartori, e agora? É o Brasil contra esse tal de Cobreloa que ninguém sabe o que é, ninguém nunca ouviu falar!
SARTORI fica sério, olha ao longe, depois fala:
- Mas sou Cobreloa desde pequenininho!

2. NO CENTRO CIRÚRGICO
Médicos entram no Centro Cirúrgico com a roupa de rua; no vestiário trocam os sapatos por calçados somente usados naquele ambien-te. Em geral estes sapatos são brancos, com exceção dos sapatos do anestesista gaúcho José Francisco Zambonato, de Florianópolis. Por qualquer razão desconhecida, os sapatos que utiliza na Clínica Santa Helena são inteiramente vermelhos!
Nos centros cirúrgicos, agentes daquela unidade hospitalar trocam seus sapatos, paletó e camisa por camisa e calças próprias para aquele ambiente. Os pacientes também passam quase pelo mesmo processo.
Com exceção dos pacientes, na cabeça vai um gorro e no rosto, cobrindo nariz até o queixo inclusive, a máscara cirúrgica. Enquanto  se aguarda o momento de entrar em campo, médicos conversam na pequena sala a eles reservada, tomando café ou chá. Pessoas estranhas ao Corpo Clínico hospitalar e algumas raras outras personalidades ocasionalmente podem ser convidadas a adentrar essas ins-talações.
Ali, conversa-se de tudo. Casos difíceis são debatidos em busca de solução. O hospital e seus problemas. Naquele ambiente, nomes de pacientes não são divulgados, quem busca ajuda dificulta a identificação dos personagens, acrescentando detalhes que impossibilitem este conhecimento.
Nessas ocasiões SARTORI brilhava contando casos nos quais sua verve, seu bom humor, tornavam interessante qualquer narrativa. Lembro de uma ocasião em que se falava sobre a influência dos pais médicos na escolha profissional dos filhos. Everaldo Sabatini tinha filho cardiologista, Albino, Manuel Cardoso, Júlio Rocha, Álvaro Rocha, Sergio Bortoluzzi, Tânia Lorenzoni e muitos outros tinham filhos médicos. Na época, Sartori e um dos ortopedistas do hospital estavam ligeiramente estremecidos. Ambos aguardavam serem chamados para operar, já devidamente paramentados. Pergunta o Ortopedista ainda a respeito da profissão dos filhos:
- Sim, e tu, Sartori?
- Bom, disse ele, meu filho, chegando a época de escolher uma atividade profissional, essa atividade sendo Medicina, se ele for burro, será Ginecologista e Obstetra, como o pai. Mas, se for burro e forte, será Ortopedista!

3. POUCO ANTES DE SAIR DE MUQUI
SARTORI aguardava ser chamado para operar, quando cheguei à sala dos médicos do HSJ. Estávamos sós e ele estava a fim de falar. Perguntou-me se já me contara de seu último paciente, atendido ainda em Muqui, ES. Disse que não. Após pausa, voltou a perguntar:
- Conheces alguém, algum comerciante com o nome de Enrico Mangiacavalo?
Fiz que não.
-  Já ouviu a história de alguém a quem tivessem espetado agulha de crochê na bunda?
Silêncio.
Sartori continuou: estava eu de saída do hospital quando vi o velho Mangiacavalo numa sala do Pronto Socorro. O outro médico da casa atendia urgência noutra sala. Resolvi entrar e perguntar o que havia. Deitado de bruços, lençol cobrindo o corpo, mas dele        distanciado e seguro por funcionário seu, o comerciante tinha uma agulha metálica, dessas usadas para fazer crochê, enfiada mais da metade numa das nádegas. Gemia incansavelmente. Pedi um RX da bunda do Mangiacavalo que insistia todo tempo em ficar internado. Estranhei a ausência de Dona Serafina e mais que tudo: como é que tendo caído sentado, conseguira enfiar uma agulha de crochê lateralmente na nádega? A agulha saiu facilmente. Tinha formato de anzol. Limpeza da região com antisséptico comum, uma picadinha de novocaína, um empurrão da agulha mais para a diante, e ... pronto!
Mangiacavalo internado, diz Sartori, fui até seu apartamento, próximo à Sala de Cirurgia, tranquei a porta e intimei-o a contar-me a  verdade. De início tentou confirmar a versão que me relatara.
Depois, pensou melhor e contou a verdade. Enrico Mangiacavalo era casado com dona Serafina, educada em colégio de freiras. Pouco graciosa e muito magra, teve o casamento arranjado pelo pároco local, preocupado com o avanço das igrejas evangélicas e do comunismo na paróquia. Mangiacavalo era generoso em suas doações à Igreja, o casal não perdia missa e era apontado como exemplo de religiosidade e retidão pela comunidade. O sino da Igreja fora doação do casal em regozijo pelo nascimento de Salvatore. Mangiacavalo beirava os 70 anos. Tudo corria no melhor dos mundos até que Dona Serafina admitiu jovenzinha de 18 anos para os serviços da casa e que dormia no emprego. Mangiacavalo passa a morrer de amores pela jovem de origem italiana. Na confissão omite os pensamentos lúbricos e as más intenções, pecados dos piores, como todos sabemos.
O capeta arma das suas. Dona Serafina sai para distribuir entre os pobres da cidade roupas e agasalhos que a estação fria estava para chegar. Mangiacavalo fica a sós com a jovem  e irracionalmente a ataca. Ela é jovem e forte e se defende. Com as mãos sente as agulhas         de crochê na poltrona contra a qual Mangia-cavalo a jogara. Pegar uma delas e espetar a bunda avantajada do ensandecido velhote foi um ato reflexo.
No hospital, as visitas ao desditoso personagem se multiplicam. Um representante do governador, o pároco representando o bispado, o prefeito, os presidentes da Câmara de Vereadores e do Rotary, o presidente do Diretório do PSD (Sartori era da UDN e relatou esse pormenor piscando um dos olhos), mas de Dona Serafina nem sinal. Mangiacavalo apelou para mim, disse Sartori, mas, naturalmente, me escusei, não era empreitada para médico. O padre-vigário, inteligente e sagaz, resolve a questão. Após a celebração da missa de domingo, visita Dona Serafina:
- O diabo, que até a Cristo tentou seduzir, é eterno. Lembre-se das tentações de Santo Antão, o príncipe dos eremitas, atormentado pelo diabo e seus asseclas. Cristo no deserto foi tentado por três vezes pelo demônio, que é um anjo rebelado, eterno como Deus. Ele existe e anda por aí, a maquinar coisas. Foi ele, com certeza, o autor dessa trama para destruir um lar católico! Foi Deus quem armou a mão da menina com a agulha redentora.
Dona Serafina, afinal, aparece no hospital debulhada em lágrimas para pedir perdão, de joelhos, a Mangiacavalo. Chorando muito, queria ser perdoada por ter se aliado a Satanás, por alguns dias contra seu marido, um legítimo mártir e defensor da fé.

4. O EPÍLOGO PARA SARTORI
Os sonhos dos homens constituem uma parte de sua história e explicam muito de seus atos. Com o que sonhava SARTORI?
Do ponto de vista profissional era chefe do Serviço de Ginecologia e Obstetrícia do HSJ e nada mais ambicionava nesta área. Estava aposentado no SUS e na área de saúde do Estado. Torcia para o Botafogo, mas não há ninguém perfeito neste mundo. Seu Ouro Preto era uma vaga lembrança encalhada no passado. Casara bem os dois filhos. Dona Aracoeli cuidava (bem) da casa, SARTORI tinha trabalho e amizades. O sorridente GÍLIO SPILLERE andava sempre por perto, tinha o Rotary, o sítio, todos os dias eram domingo. Que mais se pode querer?

5. O PASSADO
Não somos dados a relembrar e menos ainda a comemorar o passado. Não levamos muito a sério a celebração de datas significativas de nossa História. Criciúma tem poucos marcos que lembrem antigos acontecimentos. No Brasil, nossos raros monumentos são objeto de brincadeiras, aliás não destituídas de certa graça. Um monumento no Parque Ibirapuera em SP, homenagem às bandeiras, é conhecido como não empurra pela disposição de seus componentes, brancos, negros, índios, mamelucos, uns parecendo empurrar os outros. Em Curitiba, o monumento ao primeiro centenário do Paraná (1954), ali no Passeio Público, representando um homem sem camisa olhando para o norte. Mandado construir pelo governador Bento Munhoz da Rocha Neto, era conhecido como vejam como fiquei trabalhando para o Bento ou simplesmente como Pau do Bento. Ocupa o antigo Largo do Nogueira, atual Praça 19 de Dezembro, foi inaugurada no centenário da Emancipação Política do Paraná (19.12.1953), pelo governador Munhoz da Rocha Netto, presente Getúlio Vargas.
A princípio, não foi bem recebido pela população, que criticava o homem nu, por ofender a moral e pela interpretação absurda do homem do Paraná que ele poderia causar. Com o passar dos anos, o povo curitibano se acostumou com a estátua, e hoje, a praça é mais comumente conhecida como a Praça do Homem Nu do que pelo seu nome original.
Em Criciúma, faz pouco, passando pela Praça Nereu Ramos, observei que o busto que minha administração na Fundação Cultural implantou, homenageando Marcos Rovaris, primeiro prefeito da cidade, estava sem a placa comemorativa e ilustrativa. Terá sido recolocada?
É corriqueira a observação de que o Brasil é um país sem memória, que esquece facilmente seus vultos históricos, esquece os constru-tores da nossa história. A mitificação desses vultos, como instrumento da construção da nacionalidade, não por acaso, é também pobre. Nós brasileiros tendemos a ignorar ou a conferir papel secundário aos heróis, não nos preocupar muito com imagens positivas ou negativas de personagens centrais do passado. Diverso é o imaginário de outros países. O  passado, para o bem ou para o mal, integra o presente; os heróis são cultuados e as controvérsias sobre figuras históricas são bem mais apaixonadas do que no Brasil.
Enquanto na Argentina há uma disputa em torno de personagens embalsamados e de seus ossos, entronizados no Panteão nacional, no Brasil essas coisas não são levadas a sério.
Cultuar ou apagar o passado, mitificar ou ignorar figuras históricas faz muita dife-rença.

Conclui OLAVO DE ASSIS SARTORI. PRÓXIMA SEMANA INICIA THOMAZ REIS MELLO.

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