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Ceres

terça | 08/05/2012

"Navegar é preciso, viver não é preciso

Érica Rocha Colombo Psicóloga - CRP 12/7670 Membro CERES - Associação Criciumense de Apoio à Saúde Mental

"Navegar é preciso, viver não é preciso." Frase essa que ficou muito conhecida pelo poeta português Fernando Pessoa, mas que, na realidade, ela foi dita por Pompeu a seus marinheiros amedrontados por volta de 70 a.c., tentando convencê-los a viajar durante época de guerras.
Essa frase, num sentido geral e interpretativo, pode nos remeter a várias indagações. Se falarmos em "precisão", poderíamos imaginar que uma navegação é precisa, pois navegar exige um conhecimento calculado, medido e previsível. Já em relação à vida, nada é preciso. A vida não pode ser medida. Os momentos e as consequências não são passíveis de domínio completo. A vida não é exata, não é precisa. Não sabemos como será o dia de amanhã ou quando morreremos.
Percorrendo, entretanto, um caminho mais distante, na amplitude do pensamento filosófico e metafísico que Fernando Pessoa nos apresenta passamos a analisar algumas questões: i) a fuga de si mesmo (existencialismo); ii) o existencialismo que considera cada homem como um ser único, sendo ele responsável pelos seus atos e o seu destino; iii) a fuga do impossível (morte) e o pensamento chamado (vida); iv) o grande mistério de (ser) , e principalmente, v) nos aceitarmos e nos valorizarmos como somos.
Em um raciocínio analítico, "Viver não é preciso, o que é preciso é criar".
Quando nos valorizamos, temos o poder nas mãos, temos o poder de nos aceitarmos como somos, de sermos únicos. E o resultado disso é a criação. Não devemos nunca nos deixar destruir, devemos abandonar os falsos projetos, a falsa ilusão, a falsa crença, para apostarmos no que temos de me-lhor em nós.
Somos humanos o bastante para necessitarmos, a todo tempo, de perguntas com respostas rápidas. Respostas que possam nos levar ao mundo real e com isso deixamos de pensar em nossa imortalidade.
Mas o que devemos criar para deixarmos ao mundo? Que contribuição poderemos deixar aqui na terra ao que ficaram e aos que virão? Isso (esse exercício da criação) deve estar em mente, sempre presente em cada gesto, em cada amanhecer, para que a vida não passe por nós sem que a tenhamos vivido de fato.
Viver é existir de todas as formas. Para viver não basta ver, ouvir, pensar e falar, pois essas são manifestações da existência. Para viver é preciso sentir, mergulhar em si mesmo e sair . É o olhar e ver.
Quem existe apenas em viver estagna em vida. Seja qual for a interpretação dada ao tema citado "Navegar é preciso, viver não é preciso", num conflito de ambíguas interpretações optou pela ideia de achar que viver não é preciso, o que é preciso e criar.
Aceito o desafio de defender essa frase que, além de me comover, me anima, pois a criação é para mim o sentido que o homem precisa para a sua existência, para achar respostas e perguntas metafísicas que sempre fazemos, em qualquer tempo: o que somos? Para onde vamos? De onde viemos? Por isso devemos importar menos com o destino e muito mais com a nossa navegação.