Gildo Volpato
Sinais de inovação na prática pedagógica de profissionais liberais professores
Resolvi apresentar neste espaço os resultados de uma pesquisa que realizei em três universidades catarinenses onde busquei identificar, no contexto atual, sinais de práticas inovadoras na docência realizada por profissionais liberais médicos, advogados e engenheiros civis, professores universitários. Foram envolvidos os alunos formandos que identificaram por meio de questionário os professores considerados por eles referência na docência, e com os professores foram realizadas entrevistas.
O universo dos advogados, engenheiros e médicos apresentam características peculiares, próprias de sua profissão liberal e da sua formação acadêmica. Esses profissionais, geralmente, envolvidos com seus conceitos mais cartesianos, ensinam e avaliam seus alunos como foram ensinados e avaliados. Pela sua prática, geralmente, transmitem saberes e realizam avaliações idênticas àquelas de que eles próprios foram objetos. No entanto, alguns deles, ao se defrontarem com a complexidade da prática docente, sentem necessidade de desenvolver habilidades em que os sentimentos possam encontrar guarida e ter significado e os processos cognitivos ganhar nova dimensão.
Ainda que seja possível identificar a presença forte da reprodução e de processos regulatórios, há na universidade, conforme Boaventura de Souza Santos, espaços para que o professor desempenhe bem suas funções sociais e realize um trabalho sério e comprometido com a aprendizagem e desenvolvimento de seus alunos e com a sociedade em que está inserido. Práticas pedagógicas bem avaliadas se colocam muitas vezes na esteira de rupturas das formas tradicionais de atuação, permitindo, inclusive, outras formas de olhar e interpretar os saberes e os fazeres de professores universitários. Afinal, como ensinou Miguel Zabalza, nenhuma inovação é imaginada à margem dos que tenham que realizá-la: os professores transformam-se sempre nos mediadores e agentes básicos das inovações na universidade. E eu acrescento: em qualquer ambiente de ensino/aprendizagem.
Só é possível haver inovação quando os professores assumem uma visão de mundo e uma compreensão que resulte numa mudança de concepção de aprendizagem e de postura diante do ensino. Interpretei os sinais de práticas inovadoras a partir do confronto entre os depoimentos dos professores e alunos, considerando principalmente o alerta de Boaventura de Souza Santos de que "o grau de inovação mede o grau de ruptura", pois o que parece ser comum em uma área de conhecimento pode ser considerado ruptura em outras. Da mesma forma considerei os ensinamentos de José Alberto Correia e Manuel Matos quando falam da necessidade de o professor conquistar a sua autoridade e buscar ser autor de sua obra em sala de aula, pois sem isso não há inovação. Também abordei as duas vertentes de inovação apresentadas por Agnes Heller e Ângulo Rasco: uma delas se refere a modificar equipamentos e utilizar técnicas diferenciadas de ensino, e a outra à modificação total das formas de operar a situação de ensino/aprendizagem. Considerei ainda as diversas formas e modalidades de articulação entre teoria e prática no ensino, favoráveis ao desenvolvimento de práticas inovadoras, como demonstrou Elisa Lucarelli.
Organizei os dados, que emergiram dos questionários dos alunos e das entrevistas com os professores, em categorias as quais denominei "sinais de ruptura com as formas tradicionais de ensinar na universidade". Os sinais encontrados foram: ruptura com a mera transposição/transferência de conhecimento; ruptura com a postura hierárquica da relação professor/aluno; ruptura com a concepção de conhecimento pronto/acabado; ruptura com a avaliação classificatória/verificatória e ruptura com a sisudez/apatia na sala de aula. Cada um dos sinais de inovação será apresentado nas próximas semanas.
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