Gildo Volpato
Sinais de inovação na prática pedagógica de profissionais liberais professores (4)
Apresentamos neste artigo, o terceiro sinal de inovação na prática pedagógica dos profissionais liberais, professores do curso de Direito, Engenharia Civil e Medicina, o qual caracterizei "ruptura com a concepção de conhecimento pronto/acabado".
Historicamente, houve uma separação entre dois fenômenos complementares: de um lado caminharam os processos de produção de conhecimentos científicos, tendo como legítimos atores, os pesquisadores, as comunidades científicas vinculadas às universidades, e, de outro, caminharam os processos de socialização dos conhecimentos e formação, tendo como seus atores, os professores. Enquanto os primeiros se tornaram arquitetos de suas obras, autores de suas produções, os segundos ficaram com a premissa materializada na ideia de que a função do professor se resume a ensinar um corpo de conhecimentos estabelecidos e legitimados pela ciência e pela cultura. Nessa perspectiva, como expressa Maria Isabel da Cunha, a "erudição seria a qualidade mais reconhecida no docente que representaria um depositário do saber cuja palavra estaria pré-ungida de legitimação".
Mesmo não sendo produzidos pelos docentes, a eles cabe o legado de socializar os conhecimentos produzidos por outros agentes, em inúmeras salas de aula e nos diversos níveis de ensino. O que diferencia o ensino inovador de práticas tradicionais são posturas e atitudes dos professores diante do conhecimento, não o considerando pronto e acabado. Os alunos que pesquisei falaram sobre a diferença de postura de professores e apontam como referência aqueles que os ajudam a perceber a relatividade e provisoriedade do conhecimento.
Um deles me disse: "O diferencial é que ele conhece o que determina a norma, e sabe o que realmente, acontece na prática. Porque tem professor que diz: 'A norma diz isso!', mas só que a norma foi feita através do conhecimento. No decorrer do tempo, com conhecimento, foi determinada esta norma, mas pode ser mudada em qualquer momento em que justifique a alteração dela. É essa visão que ele passa pra gente" (aluna da Engenharia). Outro aluno assim se manifestou: "Há dois tipos de aula: a de conhecimento estático, onde o professor diz: 'Isso é assim'. Neste caso, mesmo sendo boa a apresentação, é difícil chamar a atenção da gente, pois o conhecimento é apresentado como morto. Já a aula com conhecimento dinâmico tem histórias que fazem a gente entender o contexto. Há sentido porque o professor faz ligações entre os diversos elementos da aula" (aluno da Medicina).
O depoimento de um professor do Curso de Medicina foi esclarecedor: "Sempre peço que questionem. Nós não conseguimos transmitir tudo de teoria e vocês não vão conseguir guardar tudo o que a gente falar, nem vamos conseguir mostrar tudo de práticas e nem as duas coisas vão coincidir. Eu nunca vou dar uma aula teórica e ter um paciente que vai cair como uma luva. As coisas não coincidem assim: ora vocês vão ter um paciente que não viram na teoria, pois o caso pode ser mais raro, ora o contrário: estudaram e nunca vão ver aquele paciente".
Mesmo não sendo os produtores dos conhecimentos, dos conteúdos que trabalham em sala de aula, os professores considerados referência, e que inovam em suas práticas pedagógicas, se autorizam pela conduta, pela forma como concebem e mobilizam o conhecimento para que os alunos se apropriem deles. Isso me remete a José Alberto Correia e Manuel Matos quando relacionam à autoridade a ideia de autor, de criador, de compositor e inventor, ou, ainda, alguém que se legitima por sua obra. Nesse sentido, os professores que se tornaram referência como docentes no ensino superior, em cursos que tradicionalmente, formam profissionais liberais, apresentam sinais de inovação pela forma que se expressam, na forma que interpretam e mobilizam o conhecimento e os conteúdos de suas disciplinas. Em breve, apresentarei a síntese do quarto sinal de inovação, o qual caracterizei "ruptura com a avaliação classificatória/verificatória".
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