Ceres
Medicamentos e saúde mental
Muitas vezes, os médicos, ansiosos por aliviar o sofrimento de seus pacientes, acabam por antecipar uma prescrição ou recorrer à medicação de uma forma apressada. Até porque a empatia, ensinamento ético básico passado aos acadêmicos já nos primeiros anos de faculdade de medicina, na disciplina de Bioética, fala que você, como médico, não deve medir esforços para curar ou aliviar a dor alheia, seja ela física ou psíquica.
Porém, muitas vezes, deixa-se de lembrar a quantidade de vidas que foram salvas e a melhora da qualidade na vida das pessoas que já fizeram uso de uma boa combinação farmacológica. E, por isso, surgem verdadeiros ataques a indústria farmacêutica e seus produtos. Entretanto, esses posicionamentos radicais são tão contraproducentes para a promoção de saúde no nosso meio como o próprio vício de medicar tudo o que se vê, sem medir as consequências. Mesmo sendo evidente que o tratamento não-medicamentoso através de psicoterapia seja essencial na maioria das vezes, é "pura ilusão"se pensar em retirar uma ideia fixa de suicídio, que acompanha uma pessoa gravemente deprimida, sem lançar mão de medicamentos ou medidas substitutivas muito objetivas. O psicofármaco, como é chamado o remédio psiquiátrico, funciona compensando quimicamente as funções cerebrais alteradas, e essas funções alteradas são a base de formação de toda e qualquer patologia psiquiátrica. Um antidepressivo, para exemplificar, funciona como um "guindaste", que retira a pessoa de uma situação de estagnação e limitações, e somente pode ser dispensado quando a pessoa em recuperação já está "em terra firme" para andar "com as próprias pernas". Nesse momento sim, ela está em condições para aproveitar as intervenções psicológicas.
Antes de aparecer no receituário do seu médico de confiança, uma substância farmacológica passa por pesquisas e ensaios com sistema rigoroso de controle, e, daí sim, é liberada para ser comercializada pelos órgãos de vigilância responsáveis, como a Anvisa, no caso do Brasil. Apesar de todas as medicações apresentarem alguns efeitos indesejáveis, ao se prescrever uma delas, é de boa prática que o seu médico avalie se os efeitos terapêuticos que ela pode trazer superam os fatores adversos, incluindo-se aí o custo dela no orçamento do paciente. No campo das doenças mentais, são muitas as opções de medicamentos para a maioria das pessoas em sofrimento. Algumas patologias, como esquizofrenia e transtornos de humor graves (como a doença bipolar do humor) necessitarão de tratamento medicamentoso para "toda a vida", enquanto que em outras, como as depressões episódicas, transtornos de ansiedade (entre eles, transtornos de pânico, fobias), as medicações eventualmente podem ser retiradas, com a devida supervisão médica. Qualquer retirada de medicação deve ser baseada em evidências científicas, documentadas em artigos que estão à disposição dos profissionais. Remédios psiquiátricos geralmente são seguros, mas uma prescrição malfeita de um fármaco pode esconder sintomas ou causar até a piora de muitas doenças, sem falar no potencial de induzir dependência física e psíquica, risco conhecido de boa parte delas.
De qualquer forma, a saúde, como um todo, dificilmente vai se beneficiar de pensamentos radicais, e a orientação multidisciplinar é uma situação irreversível. Por isso, negar a importância dos fármacos é uma atitude incompatível com a própria proposta, que é de utilizar todo o conhecimento acumulado a favor do paciente, ou, em situações de prevenção, a favor de toda a sociedade.
| Marcos Paulo Nacif | Médico psiquiatra (CRM/SC 9283) - Membro Voluntário da Ceres - Associação Criciumense de Apoio à Saúde Mental
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