Ceres
Demências: próxima "epidemia"
| Dr. Marcos Paulo Nacif | Médico Psiquiatra (CRM/SC 9283) - Membro voluntário da Ceres (Associação Criciumense de Apoio à Saúde Mental)
Uma cantora famosa começou a errar letras de músicas conhecidas e passou a ser desvalorizada, e de certa forma até impiedosamente ridicularizada no Brasil. Um homem de 80 anos morre longe de casa, afogado. Quando uma pessoa mais idosa comete erros no julgamento, ou esquece coisas tidas como óbvias, é muito comum despertar descontentamento e até maus tratos por parte dos familiares e conhecidos. Há uma certa tendência a rotular pessoas em estados de demência inicial como "caducas". Ao invés de tomar essa postura depreciativa, as pessoas que permanecem "privilegiadas na capacidade de pensar" devem utilizá-la para ajudar o idoso a aliviar-se da culpa por cometer pequenos erros. O envelhecimento da população vai necessitar atenção a uma doença que aos poucos está ficando mais frequente.
A demência é uma patologia que se caracteriza por uma perda irreversível de funções mentais importantes, causada pela deterioração das células do cérebro humano. As principais características são a perda progressiva de memória (normalmente esquecimentos de coisas mais recentes num primeiro estágio), mudanças no comportamento (explosões de raiva e irritabilidade), do juízo crítico e de auto-cuidados. Pacientes demenciados podem se perder na rua, dentro de casa, esquecer fisionomias e nomes, perder o controle urinário ou fecal, ter reações impulsivas e agressivas, sofrer com delírios (como de perseguição, prejuízo, grandeza, etc), rir ou chorar sem motivo, até ter alterações dos sentidos (como escutar ou ver coisas inexistentes).
As causas mais comuns para esse quadro são o mal de Alzheimer, a demência por multi-infartos (pequenos "derrames" difundidos por todo o tecido cerebral), a esclerose múltipla (doença de causa duvidosa que acomete a "capa" de proteção das células nervosas), o alcoolismo, e o mal de Parkinson. O doente deve iniciar acompanhamento médico para detectar a causa e afastar os problemas que se parecem com demência, como depressão, deficiências vitamínicas, doenças metabólicas (diabetes, deficiências na tireóide...), doenças que diminuem a capacidade do coração ou dos pulmões de oxigenar o cérebro, envenenamentos, etc. Um geriatra, neurologista ou psiquiatra são os especialistas mais indicados para esse tipo de paciente.
Identificar precocemente as demências tende a melhorar muito a qualidade e a aumentar inclusive o tempo de vida dos pacientes. Os familiares não só devem marcar os atendimentos, mas também ajudá-los a cumprir os tratamentos propostos. Para isso o paciente não pode viver sozinho, desprotegido e abandonado. Além de medicamentos, que retardam a progressão da doença, cuidados especiais devem ser tomados para evitar acidentes domésticos e no trânsito, isolamento social, constrangimentos, e outras consequências da doença. Entre eles, estão: melhorar a capacidade do paciente de se localizar em casa, colocar objetos de higiene e de uso pessoal em locais visíveis, incentivar exercícios dentro das limitações individuais e com supervisão, atividades recreativas e cognitivas (para estimular as associações de ideias que melhoram o desempenho da memória), instalações de estruturas físicas de apoio para evitar quedas na casa (como corrimãos), relógios em locais visíveis e com data, de preferência.
É dever moral das pessoas de bom caráter também preservar a independência do idoso (demenciado ou não), para que ele se sinta não só entendido, mas também valorizado. A nossa medicina, por sua vez, não pode se concentrar apenas em estender a vida, mas ajudar as pessoas a viverem bem esse tempo a mais que se ganha, ou caso contrário, os esforços para alcançar longevidade só serão úteis para estatísticas.
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