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Rubens Salfer

terça | 26/10/2010

A águia de Haia e a droga - I

Em paraphrase a Rui Barbosa, tenho que de todas as desgraças que penetram no homem pela algibeira e arruínam o caráter pela fortuna, uma das mais graves é, sem dúvida nenhuma, a droga. A droga na sua expressão mãe. A droga na sua acepção usual e literal. A droga propriamente dita. Em uma única palavra: droga.
Haxixe, LSD, maconha, cocaína, bazuca, merla, crack, mescalina, ecstasy, ayahuasca, yagê, skunk, teonanacati, ololiuqui, psilocibina, metaqualona, LBJ, heroína, cola de sapateiro, entre outras, são permanentes como as grandes endemias que devastam a humanidade, universal como o vício, furtiva como o crime, solapada no seu contágio como as invasões purulentas, corruptora de todos os estímulos morais. Ela zomba da decência e das leis e abarca no domínio das suas emanações a sociedade inteira; nivela sob a sua deprimente igualdade todas as classes; mergulha na promiscuidade indiferente até os mais baixos volutabros do lixo social; alcança no requinte das suas seduções a altura mais aristocrática da inteligência, da riqueza, da autoridade; inutiliza gênios; degrada príncipes; emudece oradores; atira à luta política almas azedadas pelo calistismo habitual das paradas infelizes a família e corações degenerados pelo contato cotidiano de todas as impurezas, à concorrência do trabalho diurno os náufragos das noites tempestuosas, e; não raro, a violência das indignações furiosas, que veem estuar no recinto dos parlamentos, é apenas a ressaca das agitações e dos destroços das longas madrugadas, dos mais profundos arrebatamentos.
Quantos destinos não se contam por aí dominados exclusivamente na sua irremediável esterilidade pela ação desse fadário maligno! Quantas vidas que a natureza dotara de prendas excelentes para a felicidade própria e o bem dos seus semelhantes não se consomem graças à tirania dessa paixão absorvente, no descontentamento, na revolta, na inveja, na malevolência habitual! Quantos fenômenos inexplicáveis de reação, de cólera, de ódio ao que existe, de despeito contra o que dura, de guerra ao que se eleva, de irreconciliabilidade com o que não se curva, não tem a sua origem nos contratempos e amarguras dessas existências aberradas que, sacudidas continuamente pelas emoções do inesperado se alimentam dos seus imprevistos, se estiolam com os seus malogros, e vendo a felicidade repartir-se às cegas entre seringas e cachimbos acabam por supor que alucinações, desvarios e delírios se distribuem com a mesma desproporção, com a mesma injustiça, acabam por ver no merecimento, no esforço, na economia, na perseverança, no intelecto, coisas fictícias, estranhas ou hostis, acabam por confundir o sudário divino dos mártires do trabalho, da agudeza, da habilidade, com a pobreza exprobatória em que a ociosidade, a parvulez, a afrenia amortalha os desclassificados de todas as profissões e estirpes.

(continua)